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Reflexões do pseudo omnisciente

Se sentissemos tudo a toda a hora
estariamos constantemente equivocados
seriamos bonecos no caos enredados
no expoente do hoje, do amanhã e do outrora

Seriamos a cor que nunca se percebe na aurora
e se mistura com as demais cores na eterna sina,
perpetua-se enquanto o tudo, a toda a hora
acontece e não conhece quem o domina

Mas como é bom sentir o cosmos em mim, quente
acordando a cada dia num momento, diferente
Sentindo cada segundo num segundo, já ido

Se sentissemos tudo, seriamos todos e tudo
Mas lutamos para sentir uma alma e contudo
se tivéssemos todas e nenhuma sentido?

Prefiro albergar cada segundo num segundo
e perpetuá-lo unicamente no meu mundo.


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Ultimato a Perses

Desfaz.
Mas por obséquio desfaz lentamente,
Retira peça a peça amargamente
Como quem o faz com mãos de tenaz

Desfaz.
E os bocados conspurcados então partidos
Deixarão de fazer sentido aos sentidos

E o barco de Caronte andará frente e trás.

Desfaz.
E que Gaia não componha tudo imediatamente
Que o caos prevaleça para conscientemente
Tudo renasça nas asas de quem for capaz

Vá,desfaz. Por um primeiro segundo de paz.


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As horas e os minutos esganam o que a intemporalidade vai desapertar.
Por isso vamos relaxar que o mundo é uma casa de janelas abertas.
Deixemos o fumo dispersar e o céu surgir azul, pintado à mão.
Enganem-se aqueles que pensam. O mundo é dos não pensantes.

Poro atrás de poro, cairá muro atrás de muro. Sentir é o verbo do futuro
.


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Suicídio espiritual

Se te propões heroicamente suicidar
Por uma qualquer razão ou outra
Não é de bom tom dar um tiro na boca
Nem te faças afogar

Esquece o lento voo do prédio alto
Esquece o poético e lento emular
Não esmagues tua cabeça num basalto
Nem o nó de forca queiras dar

É que eu já morri mil vezes mil
De todas essas e outras maneiras
Por isso mesmo não queiras
Uma morte tão banal e pueril

Se queres morrer realmente
de um modo letal e com dor
Se queres deixar de ser gente
priva-te da honra e do amor.

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SUS - O vírus do espaço profundo

Vindos de um tempo distante
Com corações de baioneta
As pupilas sedentas de sangue
Voam aos pares em mil naves, feroz seta

Um planeta azul distante, o destino
Um outro horizonte, um outro mar
Pois a sede interior de conquistar
Foi crescendo num voraz desatino

Num furacão de emoção que destrói
Saqueiam o Bem, o resto o fogo corrói
Mais um paraíso levado ao esquecimento

Este é um futuro onde nós
seremos um vil diabo atroz
Semeador Universal de Sofrimento.


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            O intruso

Meus poemas são meros ditados inventados
Por um poeta que comigo priva e me priva
São involuntários espasmos inusitados
Vocábulos alvoraçados numa intrusão criativa

Ele é neblina que me tolha o pensar
Tem a coragem de David no olhar
A manha de sete lobos desordeiros
E a cínica ternura de mil cordeiros

Venço-o pois sou homem e ele um espírito
E só nos homens arde o lume da arte
Derrota-me pois sou homem e ele espírito
Pode estar em mim em ti e em toda a parte 

Mas quando subo ao cume da minha imaginação
Liberto-me do jugo e por segundos penso então
Que escrever meu próprio sangue é minha meta

E quando secar de mim esta presença
Desacorrentar-me desta poética sentença
Talvez possa sonhar um dia ser poeta

. . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . 




 


       Uma luz de natal


Se eu tivesse na mão uma gambiarra
que iluminasse virtude e esperança
o mundo seria uma bonança

Mas apenas no meu peito
trago uma vela mal acesa
sujeita a ventos que metem respeito

Sabedoria eterna ou ignorância
então vos digo que para o mundo
tenho apenas um poço profundo a ofertar

Porém nessas imensas profundezas
não há desilusões ou incertezas
tão somente a vela que trago no peito a iluminar


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          Pegada tecnológica


O Homem depois de dormido, vestido, comido, bebido 
e sexualmente saciado ainda quer ser ressarcido...
Ó Humanidade cujo caminho atrofiado
revela um cérebro comum ressequido
por querer tudo e tão pouco ter dado

Tarda a surgir o tal acto de amor assumido
o choro perante a penúltima árvore derrubada
a fila de carros parados esperando calmamente 
por um sapo que atravessa destemido

Depois do maligno destino consumado
perder-se-ão as estrelas e os segredos do Universo
restará apenas aquele olhar perverso
de quem andou acorrentado com os grilhões do fado
e não chegou a nenhum lado

Precisam-se sonhadores
que idolatrem as flores e o azul do céu
Ó Humanidade quando levantas o tal véu
que destapará todas as cores?


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          Políticos cartoon


A Catarina tem olhos de cartoon
O Portas voz de papagaio falsete
O Presidente tem boca de batatoon
E no pescoço uma gravata torniquete

O Passos tem na cabeça uma ideia vazia
Lambe o tacho idealizado no colóquio
E devido à ideologia e não fisionomia
Tem na cara um terno nariz de pinóquio

E o Sócrates voltou ao activo
Vai sacando coelhos da cartola
Tem ar de manso caçador furtivo
E de quem precisa de uma esmola...

E é assim a paisagem política
De Portugal numa Europa paralítica...




 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .



   


             A fúria



 Deixei de ouvir vossas falsas orações
deixei de sentir vossos pérfidos corações
Meras palpitações sem emoções verdadeiras

Retirarei a centelha que coloquei em vós
e vossos olhos frios após ficarem sós
verterão a luz de vossas almas carniceiras

Eu que engulo de um só trago o mar salgado
e durmo com os ventos da monção ao meu lado
Não mais consentirei provocações

Sou a Mãe de todos vós e minha fúria
castrará p'la raiz a vossa incúria
e punirá p'ra todo o sempre vossas acções!



 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

 






          ''Trans lucem''


Rasguei o decreto que dizia
que tinha de acreditar em convenções
em sorrisos falsos e encenações
e a emoção de protocolo faz-me azia

Rasguei o concreto e então fiquei
com o estado imaterial remanescente
Com a luz imortal e efervescente
que está para lá do corpo, então mudei

Passei a sentir forte e vibrante o coração
neste cadáver cheio de luz e pulsação
que não sente o chão nem monotonia nem desgosto

O pior é que não sei se mudei para melhor
quero de volta a estupidez do amor
ver um rosto e não raios de luz em vez de um rosto

Tragam-me de volta o mundo real
e já que não me trespassa nenhum punhal

talvez meta a merda do raio ao pescoço...   
   

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .







      A contorção facial


Teus olhos olharam os meus fixamente
E subitamente fizeram uma chuva de oceanos
Disfarcei com um sorriso sol nascente
Mas por vezes desiludimos quem amamos

Tal momento demorou mais de mil anos
E cada gota era tempestade, era monção
Há vezes que nosso coração até enganamos
para afastar de tal orgão, tal visão

Então subitamente fiz uma careta inusitada
minha face com uma atrofiada expressão
E há minha frente a figura dela espantada
a querer largar um sorriso, qual clarão

A metamorfose do sorriso à gargalhada
demorou um segundo simplesmente
E hoje quando vejo uma cara fechada
entorto os olhos e abro a boca. Estupidamente...

Se todos fizéssemos uma careta diariamente
o mundo seria melhor. Certamente.


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               Lesa Luz


Inspirado no trovão que caiu de repente

escrevi um poema em que a palavra não consente
um claro entendimento, uma razão

Lá fora o tempo brilhava num céu eléctrico
um feixe de luz avançava, bailava frenético
mas a dança da coerência cedia noção


Juntei então dois temas na mesma poção
eliminei o antídoto: a solução
e adicionei à equação um leitor atento

Talvez se não sentisse, não transformasse
se não visse, não ouvisse e olvidasse
não criasse réstia de luz neste momento...



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              Eterno acto

Ao explorar delicadamente teus recantos
sinto os teus prantos desvanecer
como luz que se esvai ao entardecer

Ao sufocares em espasmos ternos de louca 
entramos num sensato grito boca-a-boca
pintando e oxigenando assim o amanhecer

Continuamos num roçar de corpos suados e apressados
abençoados por uma perfeita alegoria
rodeados por curiosos anjos alados
que observam um tanto ou quanto espantados
nossa falta de monotonia

Deslumbramento é forma de prazer
quando pólos antagónicos não se rejeitam
deleitam-se como peças cósmicas que se ajeitam´
para o eterno acto do perpétuo renascer.


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           Arritmias


Meu coração tem uma arritmia acentuada
E nessa peculiar batida irregular
Toda a minha esperança fica prostrada
Diante da vontade de viver e continuar

Quando bate naquele ritmo certo
Vejo um futuro cómodo e garantido
Mas ao cessar o bombeamento repetido
Vem a excentricidade, aqui me liberto

Tal evento é um modo do meu coração
Por segundos chamar-me à razão
Dizer-me que estou vivo em contrapasso

Como tal, não vejo como um mal
Esta palpitação descontínua e anormal
Lembra-me apenas que o tempo é escasso.


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .



     





        O biblioclasta

Não me rendo perante a escrita
Quanto mais vergar-me à memória
Entregar-me? Nem à Bíblia bendita
Nem à criação, nem a ti nem à História

Destruiria todas as rimas, todas as prosas
Todas as frases e pensamentos
Todas as mulheres escritas e as rosas
Criadas para tais carnais momentos

Não me vergo perante o teu Deus
Quanto mais vergar-me à poesia
Entregar-me ? Nem à noite nem ao dia
Nem ao mundo, nem aos céus, nem a Zeus !

O momento sublime que escolheria?
A lenta conflagração em Alexandria...
Ardia tudo em fogo lento:
O Homem e seu testamento !


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     Círrosis Divínis

Resíduos se acumulam
No fígado de Deus
Detritos filhos seus
Por ganância deambulam

A cirrose vai avançada
É incurável como o não crente
A Terra, Mãe destroçada
A morte, Era eminente

A Divindade vai sorvendo
A maldade desta gente
E a cirrose vai crescendo
Numa contagem decrescente


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     Errada direcção da criação


Ouço a grande explosão nos meus ouvidos
tenho um sabor a hidrogénio no palato
e com um leve odor a hélio no olfacto
sinto a criação nos meus sentidos

Roça-me ao de leve este novo espaço-tempo
Invadido pela química primordial
E a ânsia da vida pulsar a dado momento
soa a inevitável, quase fatal

Então a energia se transformou de repente
e do fundo dela mesma surgiu ardente
uma matéria incandescente que esfriou

Milhões de anos passaram
mil vulcões irados gritaram
e no céu o trovão ribombou

Foi então que em Gaia a chuva surgiu
e a morna sopa orgânica consentiu
a criação da vida e com ela o crime:

Deus incauto ao criar este planeta
deu vida ao Homem e sua faceta
conspurcou a obra mais sublime...



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           Suave cinestesia



Ontem, olhei para trás e vi um vulto
era um espírito não oficial
estava disfarçado de animal
mas mal se via o punhal, posta entre crostas

Tal espírito perguntou-me se sabia mal
quando me apunhalavam pelas costas
e nisto, com um toque suave, quase fetal
deu-me um beijo no pescoço

ao esperar a punhalada fatal
senti um arrepio divino
um arrebate fenomenal, qual colosso

o espírito ao não matar-me deu-me o mal
de pensar que o que vejo é o que ouço



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     A recta descendente ascendente



O poeta é uma monção antecipada,
uma trovoada desgovernada
cuja neblina é tinta num céu já de si dormente .

É ser que nem precisa de ser gente,
pode ser apenas uma mão e um coração, e de repente,
nas linhas que tecem o inconsciente,
é criada uma teia de liturgia desassossego e sensação .

o poeta é alguém sem meta, que ri da razão,
e rasga as veias da emoção
numa contínua mutilação de sua mente.

Alguém que segue numa infinita recta descendente ascendente
e despedaça a própria carne para fazer da palavra adoração inconsciente .

Para se fazer um poeta
é preciso escrever a sangue um sentimento fervente de ilusão,
ditar com letras mornas um dado momento ou tormento,
numa arquitectura de chama, alma e eterna paixão !




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              Desabrochar


Enquanto a suposta inércia se manteve
e o povo à meia luz se deteve
nada fazia a magna corja recear

Essa parva e morna semi-alegria
onde ninguém corava, chorava ou ria
Monotonia impávida, lento espreguiçar

Mas veio Setembro e as ruas ficaram repletas
Ciclico desabrochar de mentes inquietas
Os punhos cerrados do povo que se exprimia

E desde esse dia o país dos cravos se levantou
Veio Outubro, Novembro e no vento se escutou
o som do bater de asas, fiel ode à rebeldia !


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  Entendimento perfeito


Despertei e vi teus olhos já abertos
Teu corpo estava coberto por vis lençóis
Partes que estiveram a descoberto
Na noite anterior, calor de mil sóis

Olhei nossa cama em redor
Vi rasgos de loucura em tua roupa
No ar um quente aroma a suor
Do ardor que deixaste enquanto louca

Balbuciaste algo, com a voz ainda rouca
Interrompi-te com um lento e terno beijo
Com medo que saisse de tua boca
Um «amo-te», quando havia só desejo. . .

Uma palavra proferiste no final
Amar na conjugação pronominal mais carnal:
«Ama-me», num leve tom de flamejo . . .


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     Post mortem amare


Do instinto vem quando é aventura
Apenas sinto quando realmente ‘‘sentimos’’
E quando o vento passa é que ‘‘ouvimos’’
Sem interessar o tempo que perdura

É melhor mesmo pensar que nem existimos
Que nascemos do luar, do destino das nuvens
Que chegámos, amámos, pecámos e partimos
Como o efeito da monção depois das chuvas

De ti não quero precisar, quero estar
E estando não quero pensar, quero beijar
Teus lábios azuis e já frios, cheios de cor

Quero ter a alegre fúria de ter-te
Sentir a eterna terna raiva de morder-te
E assim não serei mais um, mas amor...



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      O teu andar flutuar


Até as pedras podem ser abençoadas
Desde o dia em que calcetadas
Pela exacta mão de um calceteiro

À parte de tudo há aquelas
Em que a virtude passou por cima delas
Num qualquer dia soalheiro

Tais pedras se tornaram preciosas
Mais brilhantes, desiguais e vistosas
Com uma irreal beleza envidraçada

É que ao passares na rua as pisaste
As tocaste e com tua alquimia as tornaste
Muito mais que pedras da calçada !


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      A ciência no amor


A linha à volta da tua face
À Lei de Darwin iluminada
Levou a ciência ao impasse:
Tal linha num humano recortada

Ao vislumbrar teu corpo, tua proporção
Ilumina a Regra de Ouro e sua noção
Exemplarmente exemplificada

Por isso meu amor por ela é de forma tal
Que até a Teoria da Relatividade Geral
Sem ele teria de ser alterada

Este meu doce encanto por ti
Consegue-se ver chegando a Pi
E inutiliza a Lei da Gravidade

O Efeito Borboleta levou assim
À Teoria do Caos que provoca em mim
A reacção química da saudade . . .



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         Poesia omnipresente


Minha poesia por Lisboa espalhada
Em cada esquina e colina, misteriosamente
Pode ser pouco, para muitos nada
Mas é como ter minh’arte omnipresente

Letra a letra, rima a rima, o povo entende
Que alguém resolveu su’alma partilhar
E se ao passar um olhar apenas se prende
É o bastante, e tal dádiva não se vende
Dá-se, para o tempo a perpetuar.



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              Ganância


Um homem tinha um lápis sem bico
Um lápis novo, mas ainda abstinente
Inteligentemente afiou-o com afinco
E ao terminar tinha um útil lápis pungente

Porém, antes de começar a sua arte
Olhou para a extremidade oposta, mais à frente
E pensou ter um acto coerente:
Afiar para ter afiada a outra parte

Afiou e tornou a afiar, sempre a mesma história:
Os bicos partiam-se sucessivamente
Incrédulo mas insistente continuou
Até que ficou só com a memória
do lápis anteriormente existente . . .



. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .







          Amor cerebral


Meu cérebro pertence-te, é teu
Ele oferece-te exclusividade
É assim desde o dia que absorveu
Tuas feromonas, pura amorosidade

A minha área tegmentar ventral
Idolatra teu corpo com avidez
E com sofreguidão animal
Anseia pelo teu corpo uma e outra vez

Até que a área do núcleo caudado
Banha-me a futura expectativa
Terá a forca corda esquiva ?
Espera-me o enlace por ela esperado ?

O amor mata, o amor cura
E esse teu olhar de felina
Atira-me do premontório oxitocina
Num mergulho incessante de loucura !



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      Dégradé noir – blanche


Ontem pensei morrer . . .
Levar comigo toda a amargura do pós-ternura
Lavar todo o corpo, parte da alma e deixar a loucura
Transpor o outro lado do anoitecer

Ontem pensei morrer
E deixar este mundo belo e imperfeito
Dar o último suspiro com um estranho trejeito
Ontem pensei no definitivo adormecer

E porque ontem pensei morrer
Hoje acordei cravado pelos espinhos de gana
Esgana de raiva meu espírito que intensamente emana
Uma enorme vontade de viver

E porque quem vive, morre
Quem morre, viverá
E nada melhor me ocorre
Para viver de novo. Já.



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 O mal que vive em nós


Tenho o destino malfadado
Verto sangue querosene
Tenho mal impregnado
e poliester adn

Meus olhos são destinos arruinados
alimentados pela visão de tuas entranhas
De minha boca saem ruídos amaldiçoados
soam a palavras dúbias que emanam manhas

Tenho o cérebro esfomeado
de lamurias e lamentações
P’ra todo o sempre cresço no fado
de teus medos e privações

Sou o lobo faminto das sensações
Anseio que teus sonhos e emoções
fiquem apátridas de mente

Sou o nefasto cordão umbilical
que fica enrolado à raiz do mal
Sou o terror do teu subconsciente.


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   Uma réstia e o resto . . . tanto


Eu amo-te tanto... Portanto
Um dia destes porventura
Se deixares de amar-me com essa ternura
Se deixares de amar-me com esse encanto

Um rasgo nos céus se abrirá
E um manto de lágrimas cobrirá
Toda, toda a terra de pranto

Então o mundo incrédulo saberá
Que um outro amor não haverá
Com tal lucidez, com tal espanto

Então o mundo compreenderá
Que meu amor não cessará
Crescerá quem sabe outro tanto

Permanecerá, como tal
Ávido de teu encanto...



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    E lá no alto, a liberdade


Hoje os burgueses calam Abril
Com promessas ocas, mil
Babando o falso ideal capital

E o povo, o mesmo que tal
Se libertou de um sistema ditatorial
Vive hoje uma democracia vil

Tenho a fé de anarquista por idealização
Sou contra a anarquia por definição
A cerebral evolução tem tenra idade

Um dia por certo o futuro fará
O homem são, cuja honestidade trará
O expoente máximo da liberdade !



. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .






   De tantas maneiras me mataste. . .


Levei dois tiros no amor
E uma facada na paixão
Toda ela e seu ardor
Pertence a outro coração

Enforquei-me no desejo
Afoguei-me na ternura
Na doce e suave brandura
Da boca que já não beijo

Atirei-me do alto da loucura
Cortei as veias da empatia
Então morri de monotonia
Saudoso dessa candura !



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     Amor que mais amei


Pensando nas mulheres que guardei
A todas me entreguei e respeitei
A todas implorei um beijo

E de todas as mulheres que amei
Por todas me honrei
Por me ofertarem seu cortejo

Porém, de todas as mulheres que venerei
Por uma e uma só me apaixonei
Com tal paixão digna de respeito

Num A acaba seu nome
Seu corpo é lume
Sonho que sonho quando me deito . . .



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            Sereno povo


O povo anda sereno, sereníssimo
Concentrado na vidinha e miudezas
Enquanto o Governo se afunda em incertezas
Confiante na predilecção do Altíssimo

Será espécie de cobardia afoita
Ou descrente valentia acanhada ?
Será talvez a consciência que pernoita
Ao «Valium» relento de vida medicamentada

É que nem a sabedoria nem a juventude
Acaba com esta inquietude:

O povo mais antigo já nem protesta
Limita-se a calar, comer e ouvir a orquestra
Recordando a antiga glória, hoje vã

E se precisássemos hoje de Abril
Era preciso leitinho, «Facebook» e antifebril
Para não constipar os meninos da mamã

Acorda povo, acabou a sesta
Acorda a revolta que a entranha manifesta !



. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .






   No poema um cortejo


Já é paixão mesmo sem fogo
Já é amor mesmo sem vício
Conquistar-te é complexo jogo
Mas teu olhar é forte indício

Recorro então à poesia
À magia da palavra rimada
E com a junção da lua com a maresia
Oração duplamente enfeitiçada

Nas palavras tenho o poder
E em escrevê-las um reinado
Ao dar-tas habilito-me a ser
Com teu amor contemplado !



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            Espécie anátema 


O ambiente, incoerentemente
É assunto para cinco ricos e pouco mais
Até o oxigénio faltar lentamente
E o carbono nos pulmões ser demais

A floresta é diariamente cortada
A espécie hoje extinta, aponta outra ameaçada
Num perfeito desequilíbrio imoral

A nós mesmos fazemos mal
Ironia engraçada, charada fatal
Milhões de anos de evolução para nada

A Natureza lentamente morre
E a espécie anátema sem aquela
Extingue-se e Ela se voltar a ser bela
A suprema inversa ironia ocorre

Eu sou um homem também
Mas Ela está melhor sem mim, sem ninguém . . .



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         Apenas eu


Dizia-me Ela antes que eu era seu Deus
Ela agora diz-me que já não é crente
Deixei eu de ser gente por esse corpo quente
Neste mundo cão repleto de ateus

Dizia-me Ela antes que comigo voou alto
Ela agora diz-me que já não sou actor
Mas um mero delator, que não voo, apenas salto
Agora diz que sou fogo sem asas, sem fulgor

Disse-me ela há pouco que já não há paixão
Nesse segundo saltei de longe
E já falta pouco para ver o chão.


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            Maldiçaras


Que amanhã esteja um dia de inverno
E o céu vermelho-negro terror, cor do Inferno
Que chovam raios, trovões e coriscos
Que os peixes não mordam em seus iscos

Que todo o trigo padeça
E o pão deixe saudade
O canibalismo que aconteça
E o fim da amizade vos enlouqueça
Pondo termo à liberdade

Que ao sustento falte o tostão
Tormento de miséria vindo do Nada
E que a criança de fome desvairada
Lamba o pó que rasteja no chão

Que amanhã esteja um dia de inverno
O mar lívido, a outra cor do Inferno
Que defequem cobras, verdades e lagartos,
Do Fundo que trepem pestes, mentiras e ratos

Que reine a Ira e o Azar, num luto de almas sós
Da dor que nasça uma nova Grande Era
Num fim que o mar engula a terra
E o céu irado caia sobre vós !


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           Negro olhar


A brilhante escuridão do teu olhar
Energiza e ilumina a minha vida
Divino feixe de luz negro-luar
Cor de paixão a toques de violeta nutrida

És de tal modo misteriosa
Que conhecer-te é pura cartomancia
Teu interior é uma secreta prosa
Revestido por pele de fina elegância

És de tal modo um livro fechado
Que é deveras impossível folhear-te
E a subtil inatingível tarefa de amar-te
Desafio pelos Deuses planeado

Esse teu quente e negro olhar
Leva-me à porta das trevas
Consome-me no teu desabrochar. . .
Quero entrar ! Não te atrevas !


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          Deus Verde vida


Comi um prato cheio de fome
Bebi um copo cheio de sede
E com a fome e sede de um titã fiquei

Porque essa fome e essa sede
Não era de conduto ou de água, mas de verde
De um verde que eu sempre amei

O verde das colinas, do mato agreste
O verde do caule da flor silvestre
O verde de todas as cores também

Um verde que já vi, mas nunca senti
Coloração que já mastiguei, mas nunca engoli
Cor que nunca vi na alma de alguém

Talvez numa rara e remota natureza
Onde o Homem não chegue, esteja a beleza
E a cor verde-vida, pertença de ninguém.


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      Vermelho-cor-de-amor


Percorro a tua noite cor de fogo
À distância um pôr-do-sol imaculado
E eu como um louco desvairado
Pergunto se o amor é mesmo um jogo

A minha jugular poética faz sentir
O sonho de ter-te, minha liberdade
E eu nesta eterna negra saudade
Funda caverna impossível de subir

Então a paz me alcança de repente
És tu, meu fogo, força que perdi
Minha acendalha de ódio decrescente
Vermelho é o amor que sinto por ti !


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         A ciência no amor


A linha à volta da tua face
À Lei de Darwin iluminada
Levou a ciência ao impasse:
Um ser com tal linha recortada !

E se olharmos teu corpo, tuas proporções
Vemos a Regra de Ouro e suas noções
Exemplarmente exemplificadas

Por isso meu amor por ela é de forma tal
Que até as Teorias da Relatividade Geral
Sem ele teriam de ser alteradas

Este meu doce encanto por ti
Consegue-se ver chegando a Pi
E enfrenta a Lei da Gravidade

O Efeito Borboleta levou assim
À Teoria do Caos que provoca em mim
A reacção química da saudade . . .


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .






          Nossa alma Uni


Será que seremos uma só mente
Separada por dois corpos materiais ?
Será que um sente o que o outro sente ?
Será apenas isto, será muito mais?

Será que uma energia outrora unida
Num corpo dos Campos Celestiais
Seria noutros tempos dividida
E unificada em nossas almas tão iguais ?

Seremos almas gémeas puras ?
Será que isso sequer existe ?
Seremos o presente passado pelo futuro ?
Será por isso que o nosso amor persiste ?


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .





            A musa


Bebi nos teus flancos a loucura
Sabor a jovem nuvem de absinto
És o calor que a sonhar sinto,
A noite que à noite me procura

Quando ris, teus olhos param no tempo
De tão subtil teu corpo flutua
Pisas ao caminha o próprio vento
E tuas pegadas ficam, como na lua

Eternamente gravadas na minha mente
Facas cravadas que meu corpo não sente
Ainda está dormente daquela última vez
Que a tua língua humedeceu minha tez...

Cheiras a rocha que toca o mar,
E eu mar que marés-vivas inventa,
Somente para te abraçar,
com paixão cega, em fúria lenta

Agora finje que nada leste
Ou que nada entendeste...


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          Engodo


Num morremorrer cheio de ilusão
João compra a paz, vil tesouro
Dá o pão e o ás àquele cabrão
Alquimista que da morte faz ouro

Com a ânsia nos nervos camuflada
Vê-se com o garrote na veia
Então a ponta rompe, deslumbrada
Uma vida mais que então esperneia

E é naquela artéria já sem movimento
Sentença de uma sociedade empodrecida
O jovem rapaz vê um clarão, sente o vento
E eu daqui já sinto o cheiro a gente sem vida

Enterra-se um que nasceu defunto
E mais ninguém liga ao assunto.


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .





         Simples desejo


Quero teu corpo na cama comigo,
Atear-lhe a chama rosa da poesia
E algures entre o real e a magia,
Ser teu igual, amante e amigo

Quero teu corpo na cama comigo
Ver a prosa e o verso transpirar
Sentir o delírio das rimas que persigo,
Numa orgia lenta, no ar, a pairar

A prioridade das coisas que quero,
É ter teu corpo na cama comigo
Pois teu ventre quente venero
Quero-te na cama e mais não digo!


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .



        Pó e azia


Se a poesia fosse virtude
Seria eu um virtuoso?
Dar-me-ia espasmos de um vaidoso ?
Grunhiria impropérios amiúde ?

Se a poesia fosse visco esbranquiçado
Ou um vomitado intelectual
Seria eu um asco verde, um anormal
Ou batoque a ponto-cruz costurado ?

A poesia não é, nem tem de ser
Estudo aprofundado de ciências
Ou remédio santo para carências
Nada que a palavra possa descrever

Poesia é simples pura energia
O ‘‘eu’’ espiritual mais profundo
A minha cerebral alquimia
É meu céu, minha terra, o meu mundo.


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .






    Desejo-te quando longe


Quero-te tanto não te tendo
Tendo-te tão pouco te quero
Não te tendo não me entendo
Ao ter-te não me tolero

Ao ter-te apenas pouco, te amo
Meros minutos, eternidades...
Logo cessam as vaidades
Quando partes, logo te chamo

Imploro aos ventos que apareças
E a prece ao ser ouvida
Sopra teu corpo, alegre promessa
Que terei depois da tua partida...


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .





            Os tais


Já saltei muros, entrei em bairros
Um tanto ou quanto impenetráveis
Galguei caminhos, procurei atalhos
Nem por satélite observáveis

Troquei sonhos e afiadas filosofias
Vi com outros olhos, outros mundos
Com os mais nobres e fiéis vagabundos
partilhei riquezas, espalhei alegrias

Comi merda que o diabo defecou
Gozei o beijo que Deus me enviou
Coisas que não sonham, se não sentiram

Tudo isto porque sou dos tais
Daqueles contra os quais
Os vossos pais vos preveniram. . .


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .





     Loucos Sem Destino


Conheço um novo mundo
Onde posso subir fundo
Ser um gigante e encolher

Posso mesmo descer alto
Meter no bolso um planalto
Reviver minha vida e de novo nascer

Modelo o ar como plasticina
A natureza me alucina
Ao ver do meu corpo luz sair

Então acompanho sua pureza
Pois tal brilho é a certeza
Que uma porta vou abrir

Entro e vejo um mundo fantasiado
Vibro como um louco ''esgazeado''
por tantas coisas aprender

Fico tal e qual um menino
E como um louco sem destino
Penso como é bom viver !!!


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .





    Lascívia cheia de raiva


Puta maldita escuta
Punha o mundo à luta
À luta por ti

Espero e sim desespero
Porque o que mais quero
É empalar-te aqui

Vem, solta-te com o vento
Ignora o tempo
Ele não é feliz

Puta maldita escuta
Sempre te quis

Vem e de ventre cheio
De esperma alheio
Entra aqui em mim
Vermelhas, sanguessugas quentes
Que tens entre os dentes
Por o sugares assim

Vem, mesmo que incerta
E de bainha aberta
Por tornos e formões

Vem, porque puta és linda
E vivo de emoções !


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .





    Sangue que ri


Sangue quente saturado
Nunca será sangue são
Sangue novo imaculado
Não vive, perde a razão

Terá o sangue saturado saudade
Por ter perdido a noção
De sentir a simplicidade
E o orgulho de fazer. . . pão?

Alguém tem de fazer pão
Mas sangue poetizado
Nem por química tratado
Será um dia sangue são

Aquele momento que contamina
Com o vírus do relaxe e prazer
Vida na ponta da faca, adrenalina
Que ensina a pensar simples, não morrer

Há pedaços de pão que se perdem
Enquanto lhe pões a compota
Migalhas que à volúpia cedem
Pormenores que pouca gente nota

Sangue saturado nunca será sangue são
Por ter andado pelos caminhos da sensação.




. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .





              Cinthia


Voava sem sair do chão
Era minh’alma livre, irreverente
À solta entre a vida, indiferente
Na ribalta do fogo franco da ilusão

O eco do meu grito então dançava
Pelo meio do meu povo, da minha gente
E célere meu delírio aumentava
Num rodopio de alegria lilás-crescente

O verde de Sintra eu transpirava
Pelos poros da alegro-fantasia
E tudo o que dizia, ouvia e sentia
Era retrato da magia que me encantava

A Serra da Lua é verdade, cor, paixão
Eterna luta contra a razão
Sintra é o lugar que Deus escolheu
Dádiva para os sentidos que me deu

Sintra é o nome, e lá no alto da Serra
Vive o mais belo paraíso da Terra.


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .





             Aguaceiro


Foi a manhã, vista um pouco turva
Sorriso breve antes do beijo lento
Foi a rosa entreaberta antes da chuva
Foi a brisa encontrada antes do vento

Foi a noite e a inocência da demora
Foi o amanhã; verde janela aberta
Dois corpos nús que não vão embora,
e acordam uma praia ainda deserta

Foi a paz, o silêncio antes do grito
Foi a nudez antes do amor consumado
E foi depois o cântico interdito
E todo este poema questionado...

Mas o que vale e o que fica
E indubitavelmente se auto-justifica
São aqueles momentos bons
Os cheiros, os toques, os sons...


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .





          A morte da maldita


E de manhã de novo o sangue puro
O lacrimejar dos olhos ofuscados
A coragem não está e o dia escuro
Revela mil deuses ocupados

Na boca o bocejo interminável
Traça o duro rumo a ‘‘Oriente’’
Ficar parado é fatal, oxidável
E por agora o ‘‘Norte’’ está ausente

Na esquina o descuido espreita
Já longe a sombra roubada grita
Então o cérebro maravilhado se deleita
Com a inevitável morte da maldita

E de manhã de novo o sangue puro
E cada vez que abre os olhos há um muro
E de manhã de novo o sangue puro
E cada vez que abre os olhos é mais duro . . .




. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .





           O chulo


Um dia a puta da Assunção
Ao cair nas suas redes
Teve um filho que era um cão
Que defecava nas paredes

Filho de uma centena de pais
Saiu quadrúpede de mil cabeças
Fruto de cem glandes travessas
Que a desposaram como animais

Pastoreia um rebanho de concubinas
Vende-lhes a honra e as vaginas
A troco de uns contos quaisquer

Faltar-lhe-à sempre um colhão
Porque nem tem meia razão
Do que pensa da Mulher.




. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .





              Purgatório


Estava melhor sozinho. Mais pedaços de morte foram trazidos para este deserto de gelo. Agoniantes gritos que soltos na imensidão do espaço vazio enchem de dor o que resta do meu . . . corpo.

Que fiz eu senão tentar encontrar o caminho que me guiava aos Deuses?

Esta cúpula que me envolve carboniza-me ao respirar, atmosfera corroída pelo azedume das minhas palavras feitas lamentos. Mais nada me resta senão rezar. Mas nem sei rezar. . .

Pai Nosso que ainda não Te achei, liberta e purifica minha alma, deixa livrar-me destes meus ossos, mendiga-me um pouco de calma, crava-me os pregos da ressurreição  concede-me nem que seja apenas a alforria da mente, já que o dó do meu corpo não tem salvação. Pega na minha amargura e finda-a, tal como finda uma qualquer estação de Inverno.

Sim ! Estou a sentir-Te ! Procuro-me . . . e já me estou a ver ! Estou aqui tão longe, mesmo à minha frente ! Porque o mereço Senhor ?




. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .






         O início da mudança


Hoje sou um homem alucinado
Que procura desesperado
Um sentido, uma guarida

O tempo passa e minha mente
Diz-me que o passado está presente
E o futuro ausente de minha vida

Procuro angustiado um rumo
Um contra-peso, um fio-de-prumo
Uma porta aberta, o fumo branco

Um novo dilema ou então uma bala perdida
Prefiro a antecipada despedida
Que meu sorriso perder o encanto.




. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .






           Fome


Dorme e assim como a fome
Ao sonhar que tens comer
Aprecia o sonho e devagar come
Pois amanhã podes não ter

Finge que tens pão à tua frente
Finge, pois a sonhar ainda és gente
Acordando podes não voltar a ser

Come à tripa forra e não repartas
Porque a sonhar só a tua fome matas
Só à tua alma podes dar comer

Vá lá, apressa-te e dorme
Despacha-te a enganar a fome
Para teu espírito não morrer.




. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .






            Ipiranga


Abre as tuas asas e voa
Usa as penas que Deus te deu
E se este mundo cruel te abalroa
Voa antes que doa, que o futuro é teu

Arrisca um salto para o infinito
Liberta a epifania em ti escondida
Grita, mas grita antes que o grito
Não seja aflito, com voz sofrida

Toma balanço, abre as asas e voa
Que o descanso é eterno mas não urgente
E se toda esta gente te magoa
Abre as asas e voa, renova-te, sê diferente !


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .






            Nuvem


Castos e suaves pastos
Que me implora a aventura
Naturalmente a única cura
Contra estes ares nefastos

Um novo céu, uma nova vida
Que me aparta da loucura
A cinzenta inodora brandura
Desta terra mal parida

A léguas e léguas daqui
Está minha alma que serena
Partiu primeiro sem pena
De deixar sua matéria aqui

Onde ''robôts'' desgraçados
São alegremente manipulados
Por dementes mentes capitalistas

Pondo o indigente no fogo
O povo cego entra no jogo
Viciado por egos fascistas

Não lutarei por todos nós
Só quero que minha vagem cresça
E um milagre floresça:
Meu corpo com sua alma a sós.


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .






            Sonho de voar


À revelia de todos os meus sentidos
Meu espírito abraça a rebeldia
O momento chegou e nem o sentia
O dia estava calmo, sem ruídos

Tal paz me invadiu, inconsciente
Dormente, minha atenção nem pressentiu
A razão posta de parte consentiu
Tal acto irracional mas coerente

E quando lá do alto me atirei
Por milagre ganhei asas e voei
A vontade venceu gloriosa a gravidade

Hoje sei que nem a morte apaga a vida
Se sonhar for realidade conseguida
Hoje sou alma etérea, luz branca sem idade

E no momento da verdade
Salta de encontro à vontade !


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .


      Pele e osso, mente feliz


Adorava sentir privações
Que me aguçassem sensações
Qualquer deserto, pólo ou oceano
Que me chegasse a pele ao tutano

Que passasse pela experiência mas contasse
Um misto de encruzilhadas e emoções
Para que por um momento me avivasse
Os sentidos e a real ordem das noções

Este sistema aparentemente avançado
Que me enche a barriga de entulho
Nada me dá senão excesso, barulho
Evolução com um desvio mal atalhado . . .

Talvez se sentisse na pele o verdadeiro mundo
Alcançasse o ‘‘eu’’ mais profundo . . .


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .






        Iago, o glossofóbico


Todo ele é pura tensão
Superficial e interiormente
Com a alma rendida à emoção
Começa a transpiração, visivelmente

A partilha de falar em público
A ânsia de a ver revelada
A gaguez incontrolada
Tudo isto abraçou-o de súbito

Chegara a sua hora de falar
Frio nó de forca, prova oral
Então o silêncio-negro-cor-do-mal
Corta-lhe a corda vocal, até sangrar

E o intenso não ruído stéreo
Prolongado como o infinito
Transforma-o num ser não etéreo
E tal momento não mais foi proscrito.




. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .






            Insensitivo


Pergunto-me se sentir é indispensável a todo o ser
Se a dor é inevitável no acto de parir
Se a lágrima tem de cair num esgar de rir
Se a pena tem de vir com o lento retrato do morrer

Pergunto-me se o mundo seria perfeito
Se a saudade fosse ausente depois da ausência
E se a mentira não fosse um direito
A essência da verdade não abria falência?

Será o mundo belo derivado ao amor?
Ou será bom o amor por contraposição à dor?
Haverá saudade sem o abraço da chegada?

Deixarão todos os pássaros de trinir
Deixará porventura o Homem de os ouvir
Se os olhos cegos não colorissem a madrugada?

Se terminasse o reino do exprimir
Estar calado seria pura eloquência?
Seria o mundo uma eterna maledicência
Sem a arte, sem o toque, sem o sorrir?




. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .




              Despertar


Um dia acordas e acordas também para o mundo
Sonhas em adulterar este tempo infecundo
Anseias por dar corpo à semente feita ideia

Primeiro debastes-te por sair da sonolência
Depois ficas viciado na coerência
Luz que não cega ou incendeia

Do imaginário partes para o objectivo
Do imaterial para algo efectivamente
E coerente ou incoerentemente
Cedes ao irreal, dás à luz o crivo

Tudo o que fora antes pensado, é processado
Do limitado profanas o limite
E o tal acto nunca antes imaginado
É subitamente alcançado, e rejubilas . . . admite !


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          Ímpar


Gente tão abstracta
Que te aparece na frente
São corpos que retratam
O que não te vai na mente

Quem fala espera, procura
Mas quem procura luz consente
Que numa palavra escura e dura
Achem-te logo tolo e diferente

Sim ! Sê impossível !
Mas no mínimo inteligível
E não deixarás de ser crente

Tu que entre o céu e a terra és o elo
És um ser inteligente e belo
Rodeado de tanta gente inocente !




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       Sátira do mau português


Tira enormes e húmidos símios do nariz
Que sensualmente cola na parede alheia
Alguns escapam da boca por um triz
Outros sua insalubre fome premeia

Dormita à porta das tabernas
Pois a embriaguez acorda primeiro
‘’Mindinha’’ amarela, sarro entre as pernas
Que choram pelas varizes do dinheiro

Agarra-se a falsos preconceitos
Cheios de inveja, mesquinhez e podridão
Alguém que cheira os próprios peidos
Mas aponta quem coça o cu com a mão

É um homem duro cheio de tesão
Mas o sangue de sua família ecoa
Nas incautas estradas de condução

É este o típico mau português
Podia ser melhor pessoa
Se soubesse contar até três . . .




. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .






             A Rosa


Conheci-te há um par de eternidades
Imensa, intensa mas breve sentença
Vibro deveras com o toque da tua presença
Altera o próprio tempo e realidade

O fogo na pele pura e macia
É um suave vício recente
O beijo eficaz analgésico, indecente
Antagonista perfeito da monotonia

Tudo isto porque ela é cor
Espasmo frio, batida cardíaca
Poema, canção, trova lírica
Sétimo sentido, criação e até amor.

Amor? Talvez amor. Por certo amor.




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          Sabor a não saber


Vocês nem imaginam as coisas que não sei
Não sei o porquê do céu ser azul
E de como os olhos o vêem de uma forma colorida
E a semente da vida, terá sido trazida
Por gente de um Universo mais a sul ?

Não sei se os pintores alucinam
Só para o mundo ser alguém
E as palavras que os poetas rimam
Terão sido inventadas por quem ?

Não sei se a gaivota que voa
Chegará a um sítio longínquo
E se gritar ? A minha voz lá ecoa ?
Envenenar-me-à este ar que quase trinco ?

Não sei sequer o que sou
Nem se para algo sirvo
Como saberei se realmente não estou
No enredo de um qualquer livro ?

E um qualquer escritor mimado
Conserva-me aqui fechado
Nesta história que não inventei

Só sei que o que sei é nada de nada
Um dia apareceu-me uma fada
E quando estava a contar-me tudo
O meu Deus fez-me ficar surdo. . .

Vocês nem imaginam as coisas que não sei . . .


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .






         Miopia gravis


Zarco de sarapatanhas
Pois bem que renhas
Dos bois que parcas

Naco de pintas belas
Carochas amarelas
Grão punhado de facas

Sebato gume de quimera
Funesta sífilis austera
Cão cremado alicante

Espuma negra serva do mal
Contra corte verde punhal
O que mutila, céu torturante

Cirrosa crisálida quente
Sente o milhafre que é dia
Vernáquia acendalha que é gente
Come o tempo, retalha, atrofia

Zarco de sarapatanhas
Pois bem que renhas
Dos bois que parcas . . .



. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .






      Virgem Maria Rita


Sabia tudo sobre mim
Fruto da brizomancia aplicada
Era eu o sonho e o escolhido para o fim
Da tal ''inocência imaculada''

A obcessão crescia como nunca antes
Perseguição cruel da harpia feroz
Então ouvi um silvo; era ela e sua voz
Lábios mel carnudos, olhos brilhantes

Expliquei-lhe então: ''que o amor
cresce em nós como uma flor,
e para isso é preciso uma semente

Entre a gente não houve calor,
e a raiz sem esse morno ardor
teria um fulgor decadente''

Dei-lhe um abraço, beijei-lhe a face e por fim
disse-lhe que não desistisse de outro amor assim.




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       Prestidigitador


O som de um cometa a passar
Um gemido puro sem fim
É o bicho que tenho em mim
Que não pára de pensar

Vai, dissolve-me o corpo no espaço
Inócuo, estridentemente mudo
Verdadeira e eterna ilusão, tudo
Logro mais fraco que um forte abraço

Isto não é arte nem poesia, não é nada !
É maresia, alquimia, a magia de um vulgar ser
Pois mais vale não ser do que apenas parecer
Visão molhada em pão e ovo, enfim, panada

Este poema é sobre o que não é
Sobre quem não tem pretensões a ser
Fala da força de querer aprender
E de quem se ri da inteligência até

É tudo uma pura ilusão?
Só eu e minha paz pensamos que não.




. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .







        Fiat Lux


Serás tu a mais pura cor,
Essa que com seu esplendor
Esboça o Arco-Íris primeiro?

Ou serás a Lilith feroz
Que em vez de desatares meus nós
Ata-os com olhar interesseiro?

Será a paz, a grande busca, o espanto
Ou um vulto fugaz, luz fraca e fusca, desencanto?
Flatulência contida que me deixa inerte
Ou espirro nutrido que me liberte?

Serás o trigo que a terra rasga
E o vento que a pá esforça
Que retalha o grão, que o moe?

Não sei se és o fermento, minha força
Ou o pedaço de pão que me engasga
E o ombro do ser que o coze, que dói

Serás o dom de ver e ouvir
E o prazer que eu quero sentir ?
Serás tu um coma profundo
ou a razão de todo o meu mundo?


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .



 


  Nesta folha branca
 Minh’alma perde-se em vida
     Branco lembra pura
      Pura lembra pele
      Branca pele pura
Lembra-me teu corpo que perdura
  Na minha mente confundida
  Que até a forma do poema
     Lembra tua cintura


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .


 


       Tubo de ensaio


Perigosas almas supremas
Pairam no ar sobre nós
Troçam dos maiores teoremas
Silenciosamente, de olhar atroz

A Terra uma enorme incubadora
Experiência morosa, mas promissora
Testando a Humanidade de perto

A extinção dos grandes sáurios explicada
Foi a eficaz solução encontrada
Para a natureza seguir o rumo certo

Sei tudo isto porque sonho
Vi também um ser medonho
E nem Deus será capaz
De perdoar a tal satanás.


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .






               Impacto


Conheci-te. Foi como o colossal ‘’Big-Bang’’ 
de onde surgiu tudo, asteróides, planetas, 
sóis e meu sangue, agora frio e mudo...

Num dos planetas eu vivia, era um mundo 
de paixão sincera, as árvores brotavam 
alegria e o solo ouro. Cada palmo, 
cada quimera, fruto de um Sol que eu merecia. 
Sol tão quente, que nem parecia ser gente...

Mas um dia um Asteróide caiu e o meu planeta 
acabou, bebeu toda a minha terra de um só 
trago, tão rápido que nem desfrutou. 
Não precisava ser um mago para fazer tão 
simples magia: abraçava o meu Sol com tal 
energia, que pelo meu mundo se espalhava, 
o calor assim o cobria e o asteróide não entrava, 
simplesmente derretia !

Asteróides viessem, asteróides caíssem,  
esses que me endoidecem... Que o teu odor 
e minha dor não me vissem nesta esfera ressequida.

Podias ser o anzol e eu um peixe cego numa 
água perdida. Mas neste poema tu és o Sol, 
o meu amor o planeta, o asteróide é a vida...


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       Clara cegueira


À cega ganância - feroz turbilhão
Falta uma chorada santa reza
Entoada que nem maldição
À consciência que nada pesa

Com a liberdade trancada no escuro
Instruído de nada que é bendito
Despido de bondade o futuro
Dançarás no baile do aflito

Os anjos caídos só oram no céu
E este mundo, ‘’mastro de cocanha’’
Cria a cadela sarnenta prenhe
Do Homem ; demónio e único réu !


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .






           O frasco ainda morno


Tão quente que está a semente que na terra se 
enterra, e tão ardente é teu corpo e teu ventre 
que meu sémen venera.

Sei que a semente, impaciente, por água espera. 
Como no teu ventre está o rebento da gente que 
por amor desespera...

Porém a nuvem não passou. A chuva não caiu. 
A semente não brotou, a ave que passou agarrou-a 
e partiu. Levou-a para terras de quem nunca mais voltou.

Teu ventre já não acolhe o ser, que saiu por 
onde entrou. Pelo prazer... Não consigo amar. 
O remorso me consome e faz meu espírito ter fome de chorar.

Senti agora o papel morno. Tristeza e morte também senti. 
Há dádivas que não têm retorno, 
algo murcha por viver sem ti...


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          Liberdade


Quando o teu espírito está livre
Nada te pode desafiar
Galgas tons e tons de azul do céu
Danças até ao fundo do mar

Para além de fazeres mil amigos
Fazes as leis da física quebrar
Da tua chuva saem nozes e figos
Do teu sol doces raios de luar

Com um salto cais nas estrelas
Têm frio e tu o calor para aquecê-las
Assustadas, contam-te um segredo:
De um feroz buraco negro têm medo

Então dás um grande espirro mágico
Dele saem infinitos malmequeres
A terrível espiral tem um fim trágico:
As flores quânticas comem-no às colheres !

Pois quando o teu espírito está livre
Está feliz e deixa a mente brincar
Ultrapassa-te e põe-te a sonhar !


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          Falso herói


E de súbito, a falsa calma que se compra. 
 A serpente sem alma que nos afronta sem 
se amedrontar. E num instante um homem volta a amar, 
amando o mundo e a si próprio, pois deu um 
par de asas ao ópio, a cobra alada do bem-estar.

Mas o chão há-de chegar, e com ele o frio que 
rasga a mente, que sem estar dormentemente 
inconsciente perde o brio.

Ansiando a face rosada e quente, o homem até mata, 
e finalmente ao voar na alada serpente, 
sobrevoa as pedras do negro rio de prata.

Momentaneamente, o falso herói tem a falsa 
calma que se compra.


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       Indomável ideal 


A corrente de ar dos meus sentidos
Ao abrir as janelas da imaginação
Exprime que jamais dará ouvidos
Às trancas negras da repressão

Um ideal é como o vento
Essencial, constante e indomável
Passa e não liga ao momento
É irmão do próprio tempo, inesgotável

Vive e cresce numa mente
Como um sopro que cresce indiferente
Algo absoluto, inquestionável

Errando não tem perdão
Mas cospe na cara da razão
Quando é puro, admirável

A corrente de ar dos meus sentidos
Ao partir as correias da repressão
Exprime que sempre dará ouvidos
Às janelas abertas da imaginação !


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       Ser indiferente


Gostava de não ser gente
E mudar de cor todos os dias
Nascer debaixo de um corpo quente
E sem pensar em ousadias
sair do ovo e voar para poente, indiferente

Podia ser o pólen de uma flor
E levemente transbordar de pureza
Voava numa Apis, aterrava noutra cor
Tendo aí um futuro com certeza

Quem me dera ser gota
De orvalho, de rio, ou de mar
Ou gota de chuva que brota
De uma nuvem que paire no ar

E se fosse uma partícula de ozono
Acordava quem parece ter sono
De proteger o mundo, de o ver crescer

Adorava ser o ar que respiras
Ou o carbono que expiras
Essencialidades do teu ser

Gostava de ser terra e de ser semente
Assim passava por todos indiferente.


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      Nossas jovens almas


Almas que voam aos poucos
Largando flocos de esperança
Desfraldando gritos considerados ocos
Sobram pútridos ouvidos moucos
A tais ecos de confiança

Ideais lógicos, sãos e profundos
São tomados por ideias banais
Aos olhos de tantos mundos
Aos olhos dos mais comuns mortais
Velhos do Restelo que tais

A juventude não será eterna
Sem o amparo da sabedoria
A ignorância é escura caverna
Juventa abraçada alegria

Um pouco de sentidas palmas
Para as nossas jovens almas !


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         Poema do Z


A puta pariu um parvo porco
Palrava perdido de paixão
Pobre pedinte e poeta pimba louco
Pedinchava para papar o podre pão

Pagou pouco e ‘’pescou’’ a pantera
Por pouca paca a pilantra pediu
Pequena pata parva que pecava e peca
Prima da puta que o pariu

O passado percebeu, no presente patinou
Pegou no pincel, um poema pintou
Passou-se, pegou na palerma e partiu
E do parvo porco nem peido, nem piu. . .


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        Desabrochar


Porquanto que a suposta inércia se manteve
e o povo à meia luz se deteve
nada fazia a magna corja recear

Essa morna e inconcreta semi-alegria
Onde ninguém corava, chorava ou ria
monotonia impávida, lento espreguiçar

Mas veio Setembro e as ruas ficaram repletas
cíclico desabrochar de mentes inquietas
Os punhos cerrados do povo que se exprimia

E desde esse dia o país dos cravos se levantou
Veio Outubro, Novembro e no vento se escutou
O som do bater de asas, fiel ode à rebeldia !


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           Quentes e boas


Comem-se com tempo frio e pouco enxuto
Meia dúzia, bucha para o caminho
A tantos serve de quente conduto
E não é por ser tributo a São Martinho

Confundem-se com a própria cidade
A castanha, o assador e seu pregão
O povo passa, sente a cumplicidade
Do cheiro que há tantos anos é tradição

É o meio de publicidade mais eficaz
O fumo e o aroma que o vento traz.


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          Dedicação


Aqui estou eu feito militar
Peito p’ra fora, cabeça no ar
Marchar e marchar, sempre marchando
Sempre à espera de ir destroçando

Camaradas amigos, faremos rebelião
Nunca mais sentiremos dor na pele
Temos força, grande saber e união
Grande ser que tomará o quartel

Homens acordem ! Somos setecentos !
Mil e quatrocentos olhos na escutaria atentos
Tiro p’la culatra, manejamos a G-3

Revolta invertida ‘’estilo Abril’’ outra vez
Mostrar o que é coragem aos sargentos
Marchar e marchar, sempre marchando

Sempre à espera de ir desertando
Não p’ra matar, somente assustar
Pacifista com arma na Marinha a marchar . . .
Aqui estou eu feito militar. . .


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 Êxtase in Milfontes with Ana


Queria fazer-te uma poesia
Com sons derivados do mar
Aliviava esta nefasta fel azia
E podias talvez relembrar . . .

É que nos meus olhos ainda estão as dunas
Flor no meu coração sempre a crescer
Desde aquela noite mágica, sem lacunas
Deusa, simples homem, luar e prazer

Das Milfontes roubei duas
Para a teus olhos ofertar
Sensações só minhas e tuas
A arte sincrónica do voar

Entrei outrora num abismo
Toco impetuosamente no fundo
Teu beijo é um grande sismo
Lembrança que ainda sacode meu mundo. . .


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            O túnel e a luz


     O caminho que percorro em direcção a mim mesmo 
é fofo e está suspenso no ar como uma nuvem, pintada 
com as cores da aurora boreal. Irei percorrê-lo 
alegremente, sem que o cansaço me incomode (há cada
vez menos cansaço), e lá, (aqui), no extremo oposto 
de mim me encontrarei. Darei um terno abraço ao ser 
que me tornei (seja ele qual for), satisfeito por me 
ter alcançado, e então relembraremos histórias e
riremos de nós mesmos.

    Depois vem a curiosidade sobre a nova etapa.


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         A última queda


O pano vermelho sobe
A actuação logo começa
Ao primeiro passo logo tropeça
Mas palhaço que cai bem é nobre

O louco levanta-se e cai de novo
E sem que sua crença se esmoreça
Tira do bolso um frágil ovo
Que parte com aparato na cabeça

Depois caem-lhe as calças
Dança ágil um par de valsas
Com vassouras e ceroulas

Então escorrega num limão
E cai redondo no chão
Farto de fazer coisas tolas

Mas o público não se riu
Ninguém bateu palmas sequer
O circo ficou pobre, vazio
Despido de pétalas o malmequer

O palhaço ajoelha-se e chora
Sente que chegou a sua hora
Desolado entra no camarim
Aconchega uma bala na pistola

E já dá para imaginar o fim . . .


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          Mutações


Se for como os puros veios da água
Moldo-me a tudo, dou-me com todos
intocável, adormeço sem mágoa
Afasto os espíritos dos lodos

E mesmo se for água impura
Ela toma forma, ela se adapta
Ao tempo, à vida à bala que mata
Que rasga a carne e a justiça que não dura

O tormento, a felicidade, a pergunta
Recipientes convincentes que a água entra
E à cidade nosso corpo a ela se junta
Duelo de unidade que a paz enfrenta

Mas se ao moldar-me como a água
For de encontro ao que sou, ao meu ser
Tornar-me-ei tocha, acordarei com mágoa
Ficarei duro como rocha até morrer !

Aprendi há muito e mesmo agora
A desligar-me do tempo que em mim não mora.


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     Ventos de esperança


Se sentires os ventos da mudança
Que vagueiam de Sul para Norte
Saberás que podes ter esperança
A herança que te dão é a sorte

Tais ventos te trarão a fortuna
Baterá teu coração mais forte
Quem sabe até o amor se una
Contigo, e te retarde a morte

Porém, se em quatro paredes ficares
E abafado uma rocha te tornares
Tais sopros não te acordarão

Engole o ar livre ! Solta-te aos ventos
Conquista teus mágicos momentos
A luta é já hoje, amanhã talvez não

Se sentires os ventos da esperança
Que sopram de Sul para Norte
Para breve estará a mudança
Que virá num turbilhão com a sorte !


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                   Deus Natura



Deus é o mar que cria a chuva
E é a chuva que na terra cai
Suave solo molhado, água turva
Fonte por onde Deus sai

Neste ente eu acredito
Na nossa Mãe Natureza
Essa eu tenho a certeza
Que tem um poder bendito

O próprio poder da vida
O ser que em mim se formou
Não uma força escondida
Aparte de quem eu sou

A Natureza é bela e antiga
Criada por um Deus de ninguém
Não remedeia o pecado e a mentira
Pois é flor e a cor que o céu tem

O Homem destrói-a, não percebe
Que Deus não faz, pede favores
Idolatrem os rios, o Sol, a neve !
Tirem dos jarros todas as flores !

Deus não tem face, tem faces
Nem tem cheiro, tem cheiros. . . 












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