
Reflexões do pseudo omnisciente
Se sentissemos tudo a toda a hora
estariamos constantemente equivocados
seriamos bonecos no caos enredados
no expoente do hoje, do amanhã e do outrora
Seriamos a cor que nunca se percebe na aurora
e se mistura com as demais cores na eterna sina,
perpetua-se enquanto o tudo, a toda a hora
acontece e não conhece quem o domina
Mas como é bom sentir o cosmos em mim, quente
acordando a cada dia num momento, diferente
Sentindo cada segundo num segundo, já ido
Se sentissemos tudo, seriamos todos e tudo
Mas lutamos para sentir uma alma e contudo
se tivéssemos todas e nenhuma sentido?
Prefiro albergar cada segundo num segundo
e perpetuá-lo unicamente no meu mundo.
. . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . .

Ultimato a Perses
Desfaz.
Mas por obséquio desfaz lentamente,
Retira peça a peça amargamente
Como quem o faz com mãos de tenaz
Desfaz.
E os bocados conspurcados então partidos
Deixarão de fazer sentido aos sentidos
E o barco de Caronte andará frente e trás.
Desfaz.
E que Gaia não componha tudo imediatamente
Que o caos prevaleça para conscientemente
Tudo renasça nas asas de quem for capaz
Vá,desfaz. Por um primeiro segundo de paz.
. . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . .

As horas e os minutos esganam o que a intemporalidade vai desapertar.
Por isso vamos relaxar que o mundo é uma casa de janelas abertas.
Deixemos o fumo dispersar e o céu surgir azul, pintado à mão.
Enganem-se aqueles que pensam. O mundo é dos não pensantes.
Poro atrás de poro, cairá muro atrás de muro. Sentir é o verbo do futuro.
. . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . .
Suicídio espiritual
Se te propões heroicamente suicidar
Por uma qualquer razão ou outra
Não é de bom tom dar um tiro na boca
Nem te faças afogar
Esquece o lento voo do prédio alto
Esquece o poético e lento emular
Não esmagues tua cabeça num basalto
Nem o nó de forca queiras dar
É que eu já morri mil vezes mil
De todas essas e outras maneiras
Por isso mesmo não queiras
Uma morte tão banal e pueril
Se queres morrer realmente
de um modo letal e com dor
Se queres deixar de ser gente
priva-te da honra e do amor.
. . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . .
SUS - O vírus do espaço profundo
Vindos de um tempo distante
Com corações de baioneta
As pupilas sedentas de sangue
Voam aos pares em mil naves, feroz seta
Um planeta azul distante, o destino
Um outro horizonte, um outro mar
Pois a sede interior de conquistar
Foi crescendo num voraz desatino
Num furacão de emoção que destrói
Saqueiam o Bem, o resto o fogo corrói
Mais um paraíso levado ao esquecimento
Este é um futuro onde nós
seremos um vil diabo atroz
Semeador Universal de Sofrimento.
. . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . .

O intruso
Meus poemas são meros ditados inventados
Por um poeta que comigo priva e me priva
São involuntários espasmos inusitados
Vocábulos alvoraçados numa intrusão criativa
Ele é neblina que me tolha o pensar
Tem a coragem de David no olhar
A manha de sete lobos desordeiros
E a cínica ternura de mil cordeiros
Venço-o pois sou homem e ele um espírito
E só nos homens arde o lume da arte
Derrota-me pois sou homem e ele espírito
Pode estar em mim em ti e em toda a parte
Mas quando subo ao cume da minha imaginação
Liberto-me do jugo e por segundos penso então
Que escrever meu próprio sangue é minha meta
E quando secar de mim esta presença
Desacorrentar-me desta poética sentença
Talvez possa sonhar um dia ser poeta
. . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . .
Uma luz de natal
Se eu tivesse na mão uma gambiarra
que iluminasse virtude e esperança
o mundo seria uma bonança
Mas apenas no meu peito
trago uma vela mal acesa
sujeita a ventos que metem respeito
Sabedoria eterna ou ignorância
então vos digo que para o mundo
tenho apenas um poço profundo a ofertar
Porém nessas imensas profundezas
não há desilusões ou incertezas
tão somente a vela que trago no peito a iluminar
. . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . .

Pegada tecnológica
O Homem depois de dormido, vestido, comido, bebido
e sexualmente saciado ainda quer ser ressarcido...
Ó Humanidade cujo caminho atrofiado
revela um cérebro comum ressequido
por querer tudo e tão pouco ter dado
Tarda a surgir o tal acto de amor assumido
o choro perante a penúltima árvore derrubada
a fila de carros parados esperando calmamente
por um sapo que atravessa destemido
Depois do maligno destino consumado
perder-se-ão as estrelas e os segredos do Universo
restará apenas aquele olhar perverso
de quem andou acorrentado com os grilhões do fado
e não chegou a nenhum lado
Precisam-se sonhadores
que idolatrem as flores e o azul do céu
Ó Humanidade quando levantas o tal véu
que destapará todas as cores?
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Políticos cartoon
A Catarina tem olhos de cartoon
O Portas voz de papagaio falsete
O Presidente tem boca de batatoon
E no pescoço uma gravata torniquete
O Passos tem na cabeça uma ideia vazia
Lambe o tacho idealizado no colóquio
E devido à ideologia e não fisionomia
Tem na cara um terno nariz de pinóquio
E o Sócrates voltou ao activo
Vai sacando coelhos da cartola
Tem ar de manso caçador furtivo
E de quem precisa de uma esmola...
E é assim a paisagem política
De Portugal numa Europa paralítica...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

A fúria
Deixei de ouvir vossas falsas orações
deixei de sentir vossos pérfidos corações
Meras palpitações sem emoções verdadeiras
Retirarei a centelha que coloquei em vós
e vossos olhos frios após ficarem sós
verterão a luz de vossas almas carniceiras
Eu que engulo de um só trago o mar salgado
e durmo com os ventos da monção ao meu lado
Não mais consentirei provocações
Sou a Mãe de todos vós e minha fúria
castrará p'la raiz a vossa incúria
e punirá p'ra todo o sempre vossas acções!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Rasguei o decreto que dizia
que tinha de acreditar em convenções
em sorrisos falsos e encenações
e a emoção de protocolo faz-me azia
Rasguei o concreto e então fiquei
com o estado imaterial remanescente
Com a luz imortal e efervescente
que está para lá do corpo, então mudei
Passei a sentir forte e vibrante o coração
neste cadáver cheio de luz e pulsação
que não sente o chão nem monotonia nem desgosto
O pior é que não sei se mudei para melhor
quero de volta a estupidez do amor
ver um rosto e não raios de luz em vez de um rosto
Tragam-me de volta o mundo real
e já que não me trespassa nenhum punhal
talvez meta a merda do raio ao pescoço...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

A contorção facial
Teus olhos olharam os meus fixamente
E subitamente fizeram uma chuva de oceanos
Disfarcei com um sorriso sol nascente
Mas por vezes desiludimos quem amamos
Tal momento demorou mais de mil anos
E cada gota era tempestade, era monção
Há vezes que nosso coração até enganamos
para afastar de tal orgão, tal visão
Então subitamente fiz uma careta inusitada
minha face com uma atrofiada expressão
E há minha frente a figura dela espantada
a querer largar um sorriso, qual clarão
A metamorfose do sorriso à gargalhada
demorou um segundo simplesmente
E hoje quando vejo uma cara fechada
entorto os olhos e abro a boca. Estupidamente...
Se todos fizéssemos uma careta diariamente
o mundo seria melhor. Certamente.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Lesa Luz
Inspirado no trovão que caiu de repente
escrevi um poema em que a palavra não consente
um claro entendimento, uma razão
Lá fora o tempo brilhava num céu eléctrico
um feixe de luz avançava, bailava frenético
mas a dança da coerência cedia noção
Juntei então dois temas na mesma poção
eliminei o antídoto: a solução
e adicionei à equação um leitor atento
Talvez se não sentisse, não transformasse
se não visse, não ouvisse e olvidasse
não criasse réstia de luz neste momento...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Eterno acto
Ao explorar delicadamente teus recantos
sinto os teus prantos desvanecer
como luz que se esvai ao entardecer
Ao sufocares em espasmos ternos de louca
entramos num sensato grito boca-a-boca
pintando e oxigenando assim o amanhecer
Continuamos num roçar de corpos suados e apressados
abençoados por uma perfeita alegoria
rodeados por curiosos anjos alados
que observam um tanto ou quanto espantados
nossa falta de monotonia
Deslumbramento é forma de prazer
quando pólos antagónicos não se rejeitam
deleitam-se como peças cósmicas que se ajeitam´
para o eterno acto do perpétuo renascer.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Tal evento é um modo do meu coração
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

A recta descendente ascendente



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A contorção facial
Teus olhos olharam os meus fixamente
E subitamente fizeram uma chuva de oceanos
Disfarcei com um sorriso sol nascente
Mas por vezes desiludimos quem amamos
Tal momento demorou mais de mil anos
E cada gota era tempestade, era monção
Há vezes que nosso coração até enganamos
para afastar de tal orgão, tal visão
Então subitamente fiz uma careta inusitada
minha face com uma atrofiada expressão
E há minha frente a figura dela espantada
a querer largar um sorriso, qual clarão
A metamorfose do sorriso à gargalhada
demorou um segundo simplesmente
E hoje quando vejo uma cara fechada
entorto os olhos e abro a boca. Estupidamente...
Se todos fizéssemos uma careta diariamente
o mundo seria melhor. Certamente.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Lesa Luz
Inspirado no trovão que caiu de repente
escrevi um poema em que a palavra não consente
um claro entendimento, uma razão
Lá fora o tempo brilhava num céu eléctrico
um feixe de luz avançava, bailava frenético
mas a dança da coerência cedia noção
Juntei então dois temas na mesma poção
eliminei o antídoto: a solução
e adicionei à equação um leitor atento
Talvez se não sentisse, não transformasse
se não visse, não ouvisse e olvidasse
não criasse réstia de luz neste momento...
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Eterno acto
Ao explorar delicadamente teus recantos
sinto os teus prantos desvanecer
como luz que se esvai ao entardecer
Ao sufocares em espasmos ternos de louca
entramos num sensato grito boca-a-boca
pintando e oxigenando assim o amanhecer
Continuamos num roçar de corpos suados e apressados
abençoados por uma perfeita alegoria
rodeados por curiosos anjos alados
que observam um tanto ou quanto espantados
nossa falta de monotonia
Deslumbramento é forma de prazer
quando pólos antagónicos não se rejeitam
deleitam-se como peças cósmicas que se ajeitam´
para o eterno acto do perpétuo renascer.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Arritmias
Meu coração tem uma arritmia acentuada
E nessa peculiar batida irregular
Toda a minha esperança fica prostrada
Toda a minha esperança fica prostrada
Diante da vontade de viver e continuar
Quando bate naquele ritmo certo
Vejo um futuro cómodo e garantido
Vejo um futuro cómodo e garantido
Mas ao cessar o bombeamento repetido
Vem a excentricidade, aqui me liberto
Tal evento é um modo do meu coração
Por segundos chamar-me à razão
Dizer-me que estou vivo em contrapasso
Como tal, não vejo como um mal
Esta palpitação descontínua e anormal
Lembra-me apenas que o tempo é escasso.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

O biblioclasta
Não me rendo perante a
escrita
Quanto mais vergar-me à memória
Entregar-me? Nem à Bíblia bendita
Nem à criação, nem a ti nem à História
Destruiria todas as rimas, todas as prosas
Todas as frases e pensamentos
Todas as mulheres escritas e as rosas
Criadas para tais carnais momentos
Não me vergo perante o teu Deus
Quanto mais vergar-me à poesia
Entregar-me ? Nem à noite nem ao dia
Nem ao mundo, nem aos céus, nem a Zeus !
O momento sublime que escolheria?
A lenta conflagração em Alexandria...
Ardia tudo em fogo lento:
O Homem e seu testamento !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Círrosis Divínis
Resíduos se acumulam
No fígado de Deus
Detritos filhos seus
Por ganância deambulam
A cirrose vai avançada
É incurável como o não crente
A Terra, Mãe destroçada
A morte, Era eminente
A Divindade vai sorvendo
A maldade desta gente
E a cirrose vai crescendo
Numa contagem decrescente
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Errada direcção da criação
Ouço a grande explosão nos meus ouvidos
tenho um sabor a hidrogénio no palato
e com um leve odor a hélio no olfacto
sinto a criação nos meus sentidos
Roça-me ao de leve este novo espaço-tempo
Invadido pela química primordial
E a ânsia da vida pulsar a dado momento
soa a inevitável, quase fatal
Então a energia se transformou de repente
e do fundo dela mesma surgiu ardente
uma matéria incandescente que esfriou
Milhões de anos passaram
mil vulcões irados gritaram
e no céu o trovão ribombou
Foi então que em Gaia a chuva surgiu
e a morna sopa orgânica consentiu
a criação da vida e com ela o crime:
Deus incauto ao criar este planeta
deu vida ao Homem e sua faceta
conspurcou a obra mais sublime...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Suave cinestesia
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Suave cinestesia
Ontem, olhei para trás e vi um vulto
era um espírito não oficial
estava disfarçado de animal
mas mal se via o punhal, posta entre
crostas
Tal espírito perguntou-me se sabia mal
quando me apunhalavam pelas costas
e nisto, com um toque suave, quase fetal
deu-me um beijo no pescoço
ao esperar a punhalada fatal
senti um arrepio divino
um arrebate fenomenal, qual colosso
o espírito ao não matar-me deu-me o
mal
de pensar que o que vejo é o que ouço
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

A recta descendente ascendente
O poeta é uma monção antecipada,
uma trovoada desgovernada
cuja neblina é tinta num céu já de si
dormente .
É ser que nem precisa de ser gente,
pode ser apenas uma mão e um coração, e de
repente,
nas linhas que tecem o inconsciente,
é criada uma teia de liturgia desassossego
e sensação .
o poeta é alguém sem meta, que ri da
razão,
e rasga as veias da emoção
numa contínua mutilação de sua mente.
Alguém que segue numa infinita recta descendente ascendente
e despedaça a própria carne para fazer da palavra adoração
inconsciente .
Para se fazer um poeta
é preciso escrever a sangue um sentimento
fervente de ilusão,
ditar com letras mornas um dado momento ou
tormento,
numa arquitectura de chama, alma e eterna
paixão !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Desabrochar
Enquanto a suposta inércia se manteve
e o povo à meia luz se deteve
nada fazia a magna corja recear
Essa parva e morna semi-alegria
onde ninguém corava, chorava ou ria
Monotonia impávida, lento espreguiçar
Mas veio Setembro e as ruas ficaram repletas
Ciclico desabrochar de mentes inquietas
Os punhos cerrados do povo que se exprimia
E desde esse dia o país dos cravos se levantou
Veio Outubro, Novembro e no vento se escutou
o som do bater de asas, fiel ode à rebeldia !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Entendimento perfeito
Despertei e vi teus olhos
já abertos
Teu corpo estava coberto por vis lençóis
Partes que estiveram a descoberto
Na noite anterior, calor de mil sóis
Olhei nossa cama em redor
Vi rasgos de loucura em tua roupa
No ar um quente aroma a suor
Do ardor que deixaste enquanto louca
Balbuciaste algo, com a voz ainda rouca
Interrompi-te com um lento e terno beijo
Com medo que saisse de tua boca
Um «amo-te», quando havia só desejo. . .
Uma
palavra proferiste no final
Amar na conjugação pronominal mais carnal:
«Ama-me», num leve tom de flamejo . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Post
mortem amare
Do
instinto vem quando é aventura
Apenas
sinto quando realmente ‘‘sentimos’’
E
quando o vento passa é que ‘‘ouvimos’’
Sem
interessar o tempo que perdura
É
melhor mesmo pensar que nem existimos
Que
nascemos do luar, do destino das nuvens
Que
chegámos, amámos, pecámos e partimos
Como
o efeito da monção depois das chuvas
De
ti não quero precisar, quero estar
E
estando não quero pensar, quero beijar
Teus
lábios azuis e já frios, cheios de cor
Quero
ter a alegre fúria de ter-te
Sentir
a eterna terna raiva de morder-te
E
assim não serei mais um, mas amor...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O teu andar flutuar
Até as pedras podem ser abençoadas
Desde o dia em que calcetadas
Pela exacta mão de um calceteiro
À parte de tudo há aquelas
Em que a virtude passou por cima delas
Num qualquer dia soalheiro
Tais pedras se tornaram preciosas
Mais brilhantes, desiguais e vistosas
Com uma irreal beleza envidraçada
É que ao passares na rua as pisaste
As tocaste e com tua alquimia as tornaste
Muito mais que pedras da calçada !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

A ciência no amor
A linha à volta da tua
face
À Lei de Darwin
iluminada
Levou a ciência ao impasse:
Tal linha num humano recortada
Ao vislumbrar teu corpo, tua proporção
Ilumina a Regra
de Ouro e sua noção
Exemplarmente exemplificada
Por isso meu amor por ela é de forma tal
Que até a Teoria
da Relatividade Geral
Sem ele teria de ser alterada
Este meu doce encanto por ti
Consegue-se ver chegando a Pi
E inutiliza a Lei
da Gravidade
O Efeito Borboleta
levou assim
À Teoria do Caos
que provoca em mim
A reacção química da saudade . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Poesia omnipresente
Minha poesia por Lisboa
espalhada
Em cada esquina e colina, misteriosamente
Pode ser pouco, para muitos nada
Mas é como ter minh’arte omnipresente
Letra a letra, rima a rima, o povo entende
Que alguém resolveu su’alma partilhar
E se ao passar um olhar apenas se prende
É o bastante, e tal dádiva não se vende
Dá-se, para o tempo a perpetuar.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Ganância
Um homem tinha um lápis
sem bico
Um lápis novo, mas ainda abstinente
Inteligentemente afiou-o com afinco
E ao terminar tinha um útil lápis pungente
Porém, antes de começar a sua arte
Olhou para a extremidade oposta, mais à
frente
E pensou ter um acto coerente:
Afiar para ter afiada a outra parte
Afiou e tornou a afiar, sempre a mesma
história:
Os bicos partiam-se sucessivamente
Incrédulo mas insistente continuou
Até que ficou só com a memória
do lápis anteriormente existente . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Deus Natura
Deus é o mar que cria a chuva
E é a chuva que na terra cai
Suave solo molhado, água turva
Fonte por onde Deus sai
Neste ente eu acredito
Na nossa Mãe Natureza
Essa eu tenho a certeza
Que tem um poder bendito
O próprio poder da vida
O ser que em mim se formou
Não uma força escondida
Aparte de quem eu sou
A Natureza é bela e antiga
Criada por um Deus de ninguém
Não remedeia o pecado e a mentira
Pois é flor e a cor que o céu tem
O Homem destrói-a, não percebe
Que Deus não faz, pede favores
Idolatrem os rios, o Sol, a neve !
Tirem dos jarros todas as flores !
Deus não tem face, tem faces
Nem tem cheiro, tem cheiros. . .

Amor cerebral
Meu cérebro pertence-te,
é teu
Ele oferece-te exclusividade
É assim desde o dia que absorveu
Tuas feromonas, pura amorosidade
A minha área tegmentar ventral
Idolatra teu corpo com avidez
E com sofreguidão animal
Anseia pelo teu corpo uma e outra vez
Até que a área do núcleo caudado
Banha-me a futura expectativa
Terá a forca corda esquiva ?
Espera-me o enlace por ela esperado ?
O amor mata, o amor cura
E esse teu olhar de felina
Atira-me do premontório oxitocina
Num mergulho incessante de loucura !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Dégradé noir – blanche
Ontem pensei morrer . . .
Levar comigo toda a amargura do
pós-ternura
Lavar todo o corpo, parte da alma e deixar
a loucura
Transpor o outro lado do anoitecer
Ontem pensei morrer
E deixar este mundo belo e imperfeito
Dar o último suspiro com um estranho
trejeito
Ontem pensei no definitivo adormecer
E porque ontem pensei morrer
Hoje acordei cravado pelos espinhos de gana
Esgana de raiva meu espírito que intensamente emana
Uma enorme vontade de viver
E porque quem vive, morre
Quem morre, viverá
E nada melhor me ocorre
Para viver de novo. Já.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

O mal que vive em nós
Tenho o destino malfadado
Verto sangue querosene
Tenho mal impregnado
e poliester adn
Meus olhos são destinos arruinados
alimentados pela visão de tuas entranhas
De minha boca saem ruídos amaldiçoados
soam a palavras dúbias que emanam manhas
Tenho o cérebro esfomeado
de lamurias e lamentações
P’ra todo o sempre cresço no fado
de teus medos e privações
Sou o lobo faminto das sensações
Anseio que teus sonhos e emoções
fiquem apátridas de mente
Sou o nefasto cordão umbilical
que fica enrolado à raiz do mal
Sou o terror do teu subconsciente.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Uma réstia e o resto . . . tanto
Eu amo-te tanto...
Portanto
Um dia destes porventura
Se deixares de amar-me com essa ternura
Se deixares de amar-me com esse encanto
Um rasgo nos céus se abrirá
E um manto de lágrimas cobrirá
Toda, toda a terra de pranto
Então o mundo incrédulo saberá
Que um outro amor não haverá
Com tal lucidez, com tal espanto
Então o mundo compreenderá
Que meu amor não cessará
Crescerá quem sabe outro tanto
Permanecerá, como tal
Ávido de teu encanto...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

E lá no alto, a liberdade
Hoje os burgueses calam
Abril
Com promessas ocas, mil
Babando o falso ideal capital
E o povo, o mesmo que tal
Se libertou de um sistema ditatorial
Vive hoje uma democracia vil
Tenho a fé de anarquista por idealização
Sou contra a anarquia por definição
A cerebral evolução tem tenra idade
Um dia por certo o futuro fará
O homem são, cuja honestidade trará
O expoente máximo da liberdade !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

De tantas maneiras me mataste. . .
Levei dois tiros no amor
E uma facada na paixão
Toda ela e seu ardor
Pertence a outro coração
Enforquei-me no desejo
Afoguei-me na ternura
Na doce e suave brandura
Da boca que já não beijo
Atirei-me do alto da loucura
Cortei as veias da empatia
Então morri de monotonia
Saudoso dessa candura !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Amor que mais amei
Pensando nas mulheres que
guardei
A todas me entreguei e respeitei
A todas implorei um beijo
E de todas as mulheres que amei
Por todas me honrei
Por me ofertarem seu cortejo
Porém, de todas as mulheres que venerei
Por uma e uma só me apaixonei
Com tal paixão digna de respeito
Num A acaba seu nome
Seu corpo é lume
Sonho que sonho quando me deito . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Sereno povo
O povo anda sereno,
sereníssimo
Concentrado na vidinha e miudezas
Enquanto o Governo se afunda em incertezas
Confiante na predilecção do Altíssimo
Será espécie de cobardia afoita
Ou descrente valentia acanhada ?
Será talvez a consciência que pernoita
Ao «Valium» relento de vida
medicamentada
É que nem a sabedoria nem a juventude
Acaba com esta inquietude:
O povo mais antigo já nem protesta
Limita-se a calar, comer e ouvir a
orquestra
Recordando a antiga glória, hoje vã
E se precisássemos hoje de Abril
Era preciso leitinho, «Facebook» e
antifebril
Para não constipar os meninos da mamã
Acorda povo, acabou a sesta
Acorda a revolta que a entranha manifesta
!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

No poema um cortejo
Já é paixão mesmo sem
fogo
Já é amor mesmo sem vício
Conquistar-te é complexo jogo
Mas teu olhar é forte indício
Recorro então à poesia
À magia da palavra rimada
E com a junção da lua com a maresia
Oração duplamente enfeitiçada
Nas palavras tenho o poder
E em escrevê-las um reinado
Ao dar-tas habilito-me a ser
Com teu amor contemplado !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Espécie anátema
O ambiente,
incoerentemente
É assunto para cinco ricos e pouco mais
Até o oxigénio faltar lentamente
E o carbono nos pulmões ser demais
A floresta é diariamente cortada
A espécie hoje extinta, aponta outra
ameaçada
Num perfeito desequilíbrio imoral
A nós mesmos fazemos mal
Ironia engraçada, charada fatal
Milhões de anos de evolução para nada
A Natureza lentamente morre
E a espécie anátema sem aquela
Extingue-se e Ela se voltar a ser bela
A suprema inversa ironia ocorre
Eu sou um homem também
Mas Ela está melhor sem mim, sem ninguém .
. .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .














Prestidigitador

Fiat Lux







Desabrochar

Apenas
eu
Dizia-me
Ela antes que eu era seu Deus
Ela
agora diz-me que já não é crente
Deixei
eu de ser gente por esse corpo quente
Neste
mundo cão repleto de ateus
Dizia-me
Ela antes que comigo voou alto
Ela
agora diz-me que já não sou actor
Mas
um mero delator, que não voo, apenas salto
Agora
diz que sou fogo sem asas, sem fulgor
Disse-me
ela há pouco que já não há paixão
Nesse
segundo saltei de longe
E
já falta pouco para ver o chão.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Maldiçaras
Que
amanhã esteja um dia de inverno
E
o céu vermelho-negro terror, cor do Inferno
Que
chovam raios, trovões e coriscos
Que
os peixes não mordam em seus iscos
Que
todo o trigo padeça
E
o pão deixe saudade
O
canibalismo que aconteça
E
o fim da amizade vos enlouqueça
Pondo
termo à liberdade
Que
ao sustento falte o tostão
Tormento
de miséria vindo do Nada
E
que a criança de fome desvairada
Lamba
o pó que rasteja no chão
Que
amanhã esteja um dia de inverno
O
mar lívido, a outra cor do Inferno
Que
defequem cobras, verdades e lagartos,
Do
Fundo que trepem pestes, mentiras e ratos
Que
reine a Ira e o Azar, num luto de almas sós
Da
dor que nasça uma nova Grande Era
Num
fim que o mar engula a terra
E
o céu irado caia sobre vós !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Negro
olhar
A
brilhante escuridão do teu olhar
Energiza
e ilumina a minha vida
Divino
feixe de luz negro-luar
Cor
de paixão a toques de violeta nutrida
És
de tal modo misteriosa
Que
conhecer-te é pura cartomancia
Teu
interior é uma secreta prosa
Revestido
por pele de fina elegância
És
de tal modo um livro fechado
Que
é deveras impossível folhear-te
E
a subtil inatingível tarefa de amar-te
Desafio
pelos Deuses planeado
Esse
teu quente e negro olhar
Leva-me
à porta das trevas
Consome-me
no teu desabrochar. . .
Quero
entrar ! Não te atrevas !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Deus
Verde vida
Comi
um prato cheio de fome
Bebi
um copo cheio de sede
E
com a fome e sede de um titã fiquei
Porque
essa fome e essa sede
Não
era de conduto ou de água, mas de verde
De
um verde que eu sempre amei
O
verde das colinas, do mato agreste
O
verde do caule da flor silvestre
O
verde de todas as cores também
Um
verde que já vi, mas nunca senti
Coloração
que já mastiguei, mas nunca engoli
Cor
que nunca vi na alma de alguém
Talvez
numa rara e remota natureza
Onde
o Homem não chegue, esteja a beleza
E
a cor verde-vida, pertença de ninguém.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Vermelho-cor-de-amor
Percorro
a tua noite cor de fogo
À
distância um pôr-do-sol imaculado
E
eu como um louco desvairado
Pergunto
se o amor é mesmo um jogo
A
minha jugular poética faz sentir
O
sonho de ter-te, minha liberdade
E
eu nesta eterna negra saudade
Funda
caverna impossível de subir
Então
a paz me alcança de repente
És
tu, meu fogo, força que perdi
Minha
acendalha de ódio decrescente
Vermelho
é o amor que sinto por ti !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

A
ciência no amor
A
linha à volta da tua face
À
Lei de Darwin iluminada
Levou
a ciência ao impasse:
Um
ser com tal linha recortada !
E
se olharmos teu corpo, tuas proporções
Vemos
a Regra de Ouro e suas noções
Exemplarmente
exemplificadas
Por
isso meu amor por ela é de forma tal
Que
até as Teorias da Relatividade Geral
Sem
ele teriam de ser alteradas
Este
meu doce encanto por ti
Consegue-se
ver chegando a Pi
E
enfrenta a Lei da Gravidade
O
Efeito Borboleta levou assim
À
Teoria do Caos que provoca em mim
A
reacção química da saudade . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Nossa
alma Uni
Será
que seremos uma só mente
Separada
por dois corpos materiais ?
Será
que um sente o que o outro sente ?
Será
apenas isto, será muito mais?
Será
que uma energia outrora unida
Num
corpo dos Campos Celestiais
Seria
noutros tempos dividida
E
unificada em nossas almas tão iguais ?
Seremos
almas gémeas puras ?
Será
que isso sequer existe ?
Seremos
o presente passado pelo futuro ?
Será
por isso que o nosso amor persiste ?
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

A
musa
Bebi
nos teus flancos a loucura
Sabor
a jovem nuvem de absinto
És
o calor que a sonhar sinto,
A
noite que à noite me procura
Quando
ris, teus olhos param no tempo
De
tão subtil teu corpo flutua
Pisas
ao caminha o próprio vento
E
tuas pegadas ficam, como na lua
Eternamente
gravadas na minha mente
Facas
cravadas que meu corpo não sente
Ainda
está dormente daquela última vez
Que
a tua língua humedeceu minha tez...
Cheiras
a rocha que toca o mar,
E
eu mar que marés-vivas inventa,
Somente
para te abraçar,
com
paixão cega, em fúria lenta
Agora
finje que nada leste
Ou
que nada entendeste...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Engodo
Num
morremorrer cheio de ilusão
João
compra a paz, vil tesouro
Dá
o pão e o ás àquele cabrão
Alquimista
que da morte faz ouro
Com
a ânsia nos nervos camuflada
Vê-se
com o garrote na veia
Então
a ponta rompe, deslumbrada
Uma
vida mais que então esperneia
E
é naquela artéria já sem movimento
Sentença
de uma sociedade empodrecida
O
jovem rapaz vê um clarão, sente o vento
E
eu daqui já sinto o cheiro a gente sem vida
Enterra-se
um que nasceu defunto
E
mais ninguém liga ao assunto.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Simples desejo
Quero
teu corpo na cama comigo,
Atear-lhe
a chama rosa da poesia
E
algures entre o real e a magia,
Ser
teu igual, amante e amigo
Quero
teu corpo na cama comigo
Ver
a prosa e o verso transpirar
Sentir
o delírio das rimas que persigo,
Numa
orgia lenta, no ar, a pairar
A
prioridade das coisas que quero,
É
ter teu corpo na cama comigo
Pois
teu ventre quente venero
Quero-te
na cama e mais não digo!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Pó
e azia
Se
a poesia fosse virtude
Seria
eu um virtuoso?
Dar-me-ia
espasmos de um vaidoso ?
Grunhiria impropérios amiúde ?
Se
a poesia fosse visco esbranquiçado
Ou
um vomitado intelectual
Seria
eu um asco verde, um anormal
Ou
batoque a ponto-cruz costurado ?
A
poesia não é, nem tem de ser
Estudo
aprofundado de ciências
Ou
remédio santo para carências
Nada
que a palavra possa descrever
Poesia
é simples pura energia
O
‘‘eu’’ espiritual mais profundo
A
minha cerebral alquimia
É
meu céu, minha terra, o meu mundo.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Desejo-te
quando longe
Quero-te
tanto não te tendo
Tendo-te
tão pouco te quero
Não
te tendo não me entendo
Ao
ter-te não me tolero
Ao
ter-te apenas pouco, te amo
Meros
minutos, eternidades...
Logo
cessam as vaidades
Quando
partes, logo te chamo
Imploro
aos ventos que apareças
E
a prece ao ser ouvida
Sopra
teu corpo, alegre promessa
Que
terei depois da tua partida...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Os
tais
Já
saltei muros, entrei em bairros
Um
tanto ou quanto impenetráveis
Galguei
caminhos, procurei atalhos
Nem
por satélite observáveis
Troquei
sonhos e afiadas filosofias
Vi
com outros olhos, outros mundos
Com
os mais nobres e fiéis vagabundos
partilhei
riquezas, espalhei alegrias
Comi
merda que o diabo defecou
Gozei
o beijo que Deus me enviou
Coisas
que não sonham, se não sentiram
Tudo
isto porque sou dos tais
Daqueles
contra os quais
Os
vossos pais vos preveniram. . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Loucos
Sem Destino
Conheço
um novo mundo
Onde
posso subir fundo
Ser
um gigante e encolher
Posso
mesmo descer alto
Meter
no bolso um planalto
Reviver
minha vida e de novo nascer
Modelo
o ar como plasticina
A
natureza me alucina
Ao
ver do meu corpo luz sair
Então
acompanho sua pureza
Pois
tal brilho é a certeza
Que
uma porta vou abrir
Entro
e vejo um mundo fantasiado
Vibro
como um louco ''esgazeado''
por
tantas coisas aprender
Fico
tal e qual um menino
E
como um louco sem destino
Penso
como é bom viver !!!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Lascívia
cheia de raiva
Puta
maldita escuta
Punha
o mundo à luta
À
luta por ti
Espero
e sim desespero
Porque
o que mais quero
É
empalar-te aqui
Vem,
solta-te com o vento
Ignora
o tempo
Ele
não é feliz
Puta
maldita escuta
Sempre
te quis
Vem
e de ventre cheio
De
esperma alheio
Entra
aqui em mim
Vermelhas,
sanguessugas quentes
Que
tens entre os dentes
Por
o sugares assim
Vem,
mesmo que incerta
E
de bainha aberta
Por
tornos e formões
Vem,
porque puta és linda
E
vivo de emoções !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Sangue
que ri
Sangue
quente saturado
Nunca
será sangue são
Sangue
novo imaculado
Não
vive, perde a razão
Terá
o sangue saturado saudade
Por
ter perdido a noção
De
sentir a simplicidade
E
o orgulho de fazer. . . pão?
Alguém
tem de fazer pão
Mas
sangue poetizado
Nem
por química tratado
Será
um dia sangue são
Aquele
momento que contamina
Com
o vírus do relaxe e prazer
Vida
na ponta da faca, adrenalina
Que
ensina a pensar simples, não morrer
Há
pedaços de pão que se perdem
Enquanto
lhe pões a compota
Migalhas
que à volúpia cedem
Pormenores
que pouca gente nota
Sangue
saturado nunca será sangue são
Por
ter andado pelos caminhos da sensação.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Cinthia
Voava
sem sair do chão
Era
minh’alma livre, irreverente
À
solta entre a vida, indiferente
Na
ribalta do fogo franco da ilusão
O
eco do meu grito então dançava
Pelo
meio do meu povo, da minha gente
E
célere meu delírio aumentava
Num
rodopio de alegria lilás-crescente
O
verde de Sintra eu transpirava
Pelos
poros da alegro-fantasia
E
tudo o que dizia, ouvia e sentia
Era
retrato da magia que me encantava
A
Serra da Lua é verdade, cor, paixão
Eterna
luta contra a razão
Sintra
é o lugar que Deus escolheu
Dádiva
para os sentidos que me deu
Sintra
é o nome, e lá no alto da Serra
Vive
o mais belo paraíso da Terra.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Aguaceiro
Foi
a manhã, vista um pouco turva
Sorriso
breve antes do beijo lento
Foi
a rosa entreaberta antes da chuva
Foi
a brisa encontrada antes do vento
Foi
a noite e a inocência da demora
Foi
o amanhã; verde janela aberta
Dois
corpos nús que não vão embora,
e
acordam uma praia ainda deserta
Foi
a paz, o silêncio antes do grito
Foi
a nudez antes do amor consumado
E
foi depois o cântico interdito
E
todo este poema questionado...
Mas
o que vale e o que fica
E
indubitavelmente se auto-justifica
São
aqueles momentos bons
Os
cheiros, os toques, os sons...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

A
morte da maldita
E
de manhã de novo o sangue puro
O
lacrimejar dos olhos ofuscados
A
coragem não está e o dia escuro
Revela
mil deuses ocupados
Na
boca o bocejo interminável
Traça
o duro rumo a ‘‘Oriente’’
Ficar
parado é fatal, oxidável
E
por agora o ‘‘Norte’’ está ausente
Na
esquina o descuido espreita
Já
longe a sombra roubada grita
Então
o cérebro maravilhado se deleita
Com
a inevitável morte da maldita
E
de manhã de novo o sangue puro
E
cada vez que abre os olhos há um muro
E
de manhã de novo o sangue puro
E
cada vez que abre os olhos é mais duro . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

O
chulo
Um
dia a puta da Assunção
Ao
cair nas suas redes
Teve
um filho que era um cão
Que
defecava nas paredes
Filho
de uma centena de pais
Saiu
quadrúpede de mil cabeças
Fruto
de cem glandes travessas
Que
a desposaram como animais
Pastoreia
um rebanho de concubinas
Vende-lhes
a honra e as vaginas
A
troco de uns contos quaisquer
Faltar-lhe-à
sempre um colhão
Porque
nem tem meia razão
Do
que pensa da Mulher.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Purgatório
Estava
melhor sozinho. Mais pedaços de morte foram trazidos para este
deserto de gelo. Agoniantes gritos que soltos na imensidão do espaço
vazio enchem de dor o que resta do meu . . . corpo.
Que
fiz eu senão tentar encontrar o caminho que me guiava aos Deuses?
Esta
cúpula que me envolve carboniza-me ao respirar, atmosfera corroída
pelo azedume das minhas palavras feitas lamentos. Mais nada me resta
senão rezar. Mas nem sei rezar. . .
Pai
Nosso que ainda não Te achei, liberta e purifica minha alma, deixa
livrar-me destes meus ossos, mendiga-me um pouco de calma, crava-me
os pregos da ressurreição concede-me nem que seja apenas a alforria
da mente, já que o dó do meu corpo não tem salvação. Pega na
minha amargura e finda-a, tal como finda uma qualquer estação de
Inverno.
Sim
! Estou a sentir-Te ! Procuro-me . . . e já me estou a ver ! Estou
aqui tão longe, mesmo à minha frente ! Porque o mereço Senhor ?
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O
início da mudança
Hoje
sou um homem alucinado
Que
procura desesperado
Um
sentido, uma guarida
O
tempo passa e minha mente
Diz-me
que o passado está presente
E
o futuro ausente de minha vida
Procuro
angustiado um rumo
Um
contra-peso, um fio-de-prumo
Uma
porta aberta, o fumo branco
Um
novo dilema ou então uma bala perdida
Prefiro
a antecipada despedida
Que
meu sorriso perder o encanto.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Fome
Dorme
e assim como a fome
Ao
sonhar que tens comer
Aprecia
o sonho e devagar come
Pois
amanhã podes não ter
Finge
que tens pão à tua frente
Finge,
pois a sonhar ainda és gente
Acordando
podes não voltar a ser
Come
à tripa forra e não repartas
Porque
a sonhar só a tua fome matas
Só
à tua alma podes dar comer
Vá
lá, apressa-te e dorme
Despacha-te
a enganar a fome
Para
teu espírito não morrer.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Ipiranga
Abre
as tuas asas e voa
Usa
as penas que Deus te deu
E
se este mundo cruel te abalroa
Voa
antes que doa, que o futuro é teu
Arrisca
um salto para o infinito
Liberta
a epifania em ti escondida
Grita,
mas grita antes que o grito
Não
seja aflito, com voz sofrida
Toma
balanço, abre as asas e voa
Que
o descanso é eterno mas não urgente
E
se toda esta gente te magoa
Abre
as asas e voa, renova-te, sê diferente !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Nuvem
Castos
e suaves pastos
Que
me implora a aventura
Naturalmente
a única cura
Contra
estes ares nefastos
Um
novo céu, uma nova vida
Que
me aparta da loucura
A
cinzenta inodora brandura
Desta
terra mal parida
A
léguas e léguas daqui
Está
minha alma que serena
Partiu
primeiro sem pena
De
deixar sua matéria aqui
Onde ''robôts'' desgraçados
São
alegremente manipulados
Por
dementes mentes capitalistas
Pondo
o indigente no fogo
O
povo cego entra no jogo
Viciado
por egos fascistas
Não
lutarei por todos nós
Só
quero que minha vagem cresça
E
um milagre floresça:
Meu
corpo com sua alma a sós.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Sonho
de voar
À
revelia de todos os meus sentidos
Meu
espírito abraça a rebeldia
O
momento chegou e nem o sentia
O
dia estava calmo, sem ruídos
Tal
paz me invadiu, inconsciente
Dormente,
minha atenção nem pressentiu
A
razão posta de parte consentiu
Tal
acto irracional mas coerente
E
quando lá do alto me atirei
Por
milagre ganhei asas e voei
A
vontade venceu gloriosa a gravidade
Hoje
sei que nem a morte apaga a vida
Se
sonhar for realidade conseguida
Hoje
sou alma etérea, luz branca sem idade
E
no momento da verdade
Salta
de encontro à vontade !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Pele
e osso, mente feliz
Adorava
sentir privações
Que
me aguçassem sensações
Qualquer
deserto, pólo ou oceano
Que
me chegasse a pele ao tutano
Que
passasse pela experiência mas contasse
Um
misto de encruzilhadas e emoções
Para
que por um momento me avivasse
Os
sentidos e a real ordem das noções
Este
sistema aparentemente avançado
Que
me enche a barriga de entulho
Nada
me dá senão excesso, barulho
Evolução
com um desvio mal atalhado . . .
Talvez
se sentisse na pele o verdadeiro mundo
Alcançasse
o ‘‘eu’’ mais profundo . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Iago,
o glossofóbico
Todo
ele é pura tensão
Superficial
e interiormente
Com
a alma rendida à emoção
Começa
a transpiração, visivelmente
A
partilha de falar em público
A
ânsia de a ver revelada
A
gaguez incontrolada
Tudo
isto abraçou-o de súbito
Chegara
a sua hora de falar
Frio
nó de forca, prova oral
Então
o silêncio-negro-cor-do-mal
Corta-lhe
a corda vocal, até sangrar
E
o intenso não ruído stéreo
Prolongado
como o infinito
Transforma-o
num ser não etéreo
E
tal momento não mais foi proscrito.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Insensitivo
Pergunto-me
se sentir é indispensável a todo o ser
Se
a dor é inevitável no acto de parir
Se
a lágrima tem de cair num esgar de rir
Se
a pena tem de vir com o lento retrato do morrer
Pergunto-me
se o mundo seria perfeito
Se
a saudade fosse ausente depois da ausência
E
se a mentira não fosse um direito
A
essência da verdade não abria falência?
Será
o mundo belo derivado ao amor?
Ou
será bom o amor por contraposição à dor?
Haverá
saudade sem o abraço da chegada?
Deixarão
todos os pássaros de trinir
Deixará
porventura o Homem de os ouvir
Se
os olhos cegos não colorissem a madrugada?
Se
terminasse o reino do exprimir
Estar
calado seria pura eloquência?
Seria
o mundo uma eterna maledicência
Sem
a arte, sem o toque, sem o sorrir?
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Despertar
Um
dia acordas e acordas também para o mundo
Sonhas
em adulterar este tempo infecundo
Anseias
por dar corpo à semente feita ideia
Primeiro
debastes-te por sair da sonolência
Depois
ficas viciado na coerência
Luz
que não cega ou incendeia
Do
imaginário partes para o objectivo
Do
imaterial para algo efectivamente
E
coerente ou incoerentemente
Cedes
ao irreal, dás à luz o crivo
Tudo
o que fora antes pensado, é processado
Do
limitado profanas o limite
E
o tal acto nunca antes imaginado
É
subitamente alcançado, e rejubilas . . . admite !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Ímpar
Gente
tão abstracta
Que
te aparece na frente
São
corpos que retratam
O
que não te vai na mente
Quem
fala espera, procura
Mas
quem procura luz consente
Que
numa palavra escura e dura
Achem-te
logo tolo e diferente
Sim
! Sê impossível !
Mas
no mínimo inteligível
E
não deixarás de ser crente
Tu
que entre o céu e a terra és o elo
És
um ser inteligente e belo
Rodeado
de tanta gente inocente !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Sátira
do mau português
Tira
enormes e húmidos símios do nariz
Que
sensualmente cola na parede alheia
Alguns
escapam da boca por um triz
Outros
sua insalubre fome premeia
Dormita
à porta das tabernas
Pois
a embriaguez acorda primeiro
‘’Mindinha’’
amarela, sarro entre as pernas
Que
choram pelas varizes do dinheiro
Agarra-se
a falsos preconceitos
Cheios
de inveja, mesquinhez e podridão
Alguém
que cheira os próprios peidos
Mas
aponta quem coça o cu com a mão
É
um homem duro cheio de tesão
Mas
o sangue de sua família ecoa
Nas
incautas estradas de condução
É
este o típico mau português
Podia
ser melhor pessoa
Se
soubesse contar até três . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

A Rosa
Conheci-te
há um par de eternidades
Imensa,
intensa mas breve sentença
Vibro
deveras com o toque da tua presença
Altera
o próprio tempo e realidade
O
fogo na pele pura e macia
É
um suave vício recente
O
beijo eficaz analgésico, indecente
Antagonista
perfeito da monotonia
Tudo
isto porque ela é cor
Espasmo
frio, batida cardíaca
Poema,
canção, trova lírica
Sétimo
sentido, criação e até amor.
Amor?
Talvez amor. Por certo amor.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Sabor
a não saber
Vocês
nem imaginam as coisas que não sei
Não
sei o porquê do céu ser azul
E
de como os olhos o vêem de uma forma colorida
E
a semente da vida, terá sido trazida
Por
gente de um Universo mais a sul ?
Não
sei se os pintores alucinam
Só
para o mundo ser alguém
E
as palavras que os poetas rimam
Terão
sido inventadas por quem ?
Não
sei se a gaivota que voa
Chegará
a um sítio longínquo
E
se gritar ? A minha voz lá ecoa ?
Envenenar-me-à
este ar que quase trinco ?
Não
sei sequer o que sou
Nem
se para algo sirvo
Como
saberei se realmente não estou
No
enredo de um qualquer livro ?
E
um qualquer escritor mimado
Conserva-me
aqui fechado
Nesta
história que não inventei
Só
sei que o que sei é nada de nada
Um
dia apareceu-me uma fada
E
quando estava a contar-me tudo
O
meu Deus fez-me ficar surdo. . .
Vocês
nem imaginam as coisas que não sei . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Miopia
gravis
Zarco
de sarapatanhas
Pois
bem que renhas
Dos
bois que parcas
Naco
de pintas belas
Carochas
amarelas
Grão
punhado de facas
Sebato
gume de quimera
Funesta
sífilis austera
Cão
cremado alicante
Espuma
negra serva do mal
Contra
corte verde punhal
O
que mutila, céu torturante
Cirrosa
crisálida quente
Sente
o milhafre que é dia
Vernáquia
acendalha que é gente
Come
o tempo, retalha, atrofia
Zarco
de sarapatanhas
Pois
bem que renhas
Dos
bois que parcas . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Virgem Maria Rita
Sabia
tudo sobre mim
Fruto
da brizomancia aplicada
Era
eu o sonho e o escolhido para o fim
Da
tal ''inocência imaculada''
A
obcessão crescia como nunca antes
Perseguição
cruel da harpia feroz
Então
ouvi um silvo; era ela e sua voz
Lábios
mel carnudos, olhos brilhantes
Expliquei-lhe
então: ''que o amor
cresce
em nós como uma flor,
e
para isso é preciso uma semente
Entre
a gente não houve calor,
e
a raiz sem esse morno ardor
teria
um fulgor decadente''
Dei-lhe
um abraço, beijei-lhe a face e por fim
disse-lhe
que não desistisse de outro amor assim.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Prestidigitador
O
som de um cometa a passar
Um
gemido puro sem fim
É
o bicho que tenho em mim
Que
não pára de pensar
Vai,
dissolve-me o corpo no espaço
Inócuo,
estridentemente mudo
Verdadeira
e eterna ilusão, tudo
Logro
mais fraco que um forte abraço
Isto
não é arte nem poesia, não é nada !
É
maresia, alquimia, a magia de um vulgar ser
Pois
mais vale não ser do que apenas parecer
Visão
molhada em pão e ovo, enfim, panada
Este
poema é sobre o que não é
Sobre
quem não tem pretensões a ser
Fala
da força de querer aprender
E
de quem se ri da inteligência até
É
tudo uma pura ilusão?
Só
eu e minha paz pensamos que não.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Fiat Lux
Serás
tu a mais pura cor,
Essa
que com seu esplendor
Esboça
o Arco-Íris primeiro?
Ou
serás a Lilith feroz
Que
em vez de desatares meus nós
Ata-os
com olhar interesseiro?
Será
a paz, a grande busca, o espanto
Ou
um vulto fugaz, luz fraca e fusca, desencanto?
Flatulência
contida que me deixa inerte
Ou
espirro nutrido que me liberte?
Serás
o trigo que a terra rasga
E
o vento que a pá esforça
Que
retalha o grão, que o moe?
Não
sei se és o fermento, minha força
Ou
o pedaço de pão que me engasga
E
o ombro do ser que o coze, que dói
Serás
o dom de ver e ouvir
E
o prazer que eu quero sentir ?
Serás
tu um coma profundo
ou
a razão de todo o meu mundo?
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Nesta folha
branca
Minh’alma perde-se
em vida
Branco lembra pura
Pura lembra pele
Branca pele pura
Lembra-me teu corpo
que perdura
Na minha mente
confundida
Que até a forma do
poema
Lembra tua cintura
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Tubo de
ensaio
Perigosas
almas supremas
Pairam no ar sobre
nós
Troçam dos maiores
teoremas
Silenciosamente, de
olhar atroz
A Terra uma enorme
incubadora
Experiência morosa,
mas promissora
Testando a
Humanidade de perto
A extinção dos
grandes sáurios explicada
Foi a eficaz solução
encontrada
Para a natureza
seguir o rumo certo
Sei tudo isto porque
sonho
Vi também um ser
medonho
E nem Deus será
capaz
De perdoar a tal
satanás.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Impacto
Conheci-te.
Foi como o colossal ‘’Big-Bang’’
de onde surgiu tudo, asteróides, planetas,
sóis e meu sangue, agora frio e mudo...
de onde surgiu tudo, asteróides, planetas,
sóis e meu sangue, agora frio e mudo...
Num dos
planetas eu vivia, era um mundo
de paixão sincera, as árvores brotavam
alegria e o solo ouro. Cada palmo,
cada quimera, fruto de um Sol que eu merecia.
Sol tão quente, que nem parecia ser gente...
de paixão sincera, as árvores brotavam
alegria e o solo ouro. Cada palmo,
cada quimera, fruto de um Sol que eu merecia.
Sol tão quente, que nem parecia ser gente...
Mas um dia
um Asteróide caiu e o meu planeta
acabou, bebeu toda a minha terra de um só
trago, tão rápido que nem desfrutou.
Não precisava ser um mago para fazer tão
simples magia: abraçava o meu Sol com tal
energia, que pelo meu mundo se espalhava,
o calor assim o cobria e o asteróide não entrava,
simplesmente derretia !
acabou, bebeu toda a minha terra de um só
trago, tão rápido que nem desfrutou.
Não precisava ser um mago para fazer tão
simples magia: abraçava o meu Sol com tal
energia, que pelo meu mundo se espalhava,
o calor assim o cobria e o asteróide não entrava,
simplesmente derretia !
Asteróides
viessem, asteróides caíssem,
esses que me endoidecem... Que o teu odor
e minha dor não me vissem nesta esfera ressequida.
esses que me endoidecem... Que o teu odor
e minha dor não me vissem nesta esfera ressequida.
Podias ser
o anzol e eu um peixe cego numa
água perdida. Mas neste poema tu és o Sol,
o meu amor o planeta, o asteróide é a vida...
água perdida. Mas neste poema tu és o Sol,
o meu amor o planeta, o asteróide é a vida...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Clara
cegueira
À cega
ganância - feroz turbilhão
Falta uma chorada
santa reza
Entoada que nem
maldição
À consciência que
nada pesa
Com a liberdade
trancada no escuro
Instruído de nada
que é bendito
Despido de bondade o
futuro
Dançarás no baile
do aflito
Os anjos caídos só
oram no céu
E este mundo,
‘’mastro de cocanha’’
Cria a cadela
sarnenta prenhe
Do Homem ; demónio
e único réu !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

O
frasco ainda morno
Tão
quente que está a semente que na terra se
enterra, e tão ardente é teu corpo e teu ventre
que meu sémen venera.
enterra, e tão ardente é teu corpo e teu ventre
que meu sémen venera.
Sei que a
semente, impaciente, por água espera.
Como no teu ventre está o rebento da gente que
por amor desespera...
Como no teu ventre está o rebento da gente que
por amor desespera...
Porém a
nuvem não passou. A chuva não caiu.
A semente não brotou, a ave que passou agarrou-a
e partiu. Levou-a para terras de quem nunca mais voltou.
A semente não brotou, a ave que passou agarrou-a
e partiu. Levou-a para terras de quem nunca mais voltou.
Teu ventre
já não acolhe o ser, que saiu por
onde entrou. Pelo prazer... Não consigo amar.
O remorso me consome e faz meu espírito ter fome de chorar.
onde entrou. Pelo prazer... Não consigo amar.
O remorso me consome e faz meu espírito ter fome de chorar.
Senti
agora o papel morno. Tristeza e morte também senti.
Há dádivas que não têm retorno,
algo murcha por viver sem ti...
Há dádivas que não têm retorno,
algo murcha por viver sem ti...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Liberdade
Quando o teu
espírito está livre
Nada te pode
desafiar
Galgas tons e tons
de azul do céu
Danças até ao
fundo do mar
Para além de
fazeres mil amigos
Fazes as leis da
física quebrar
Da tua chuva saem
nozes e figos
Do teu sol doces
raios de luar
Com um salto cais
nas estrelas
Têm frio e tu o
calor para aquecê-las
Assustadas,
contam-te um segredo:
De um feroz buraco
negro têm medo
Então dás um
grande espirro mágico
Dele saem infinitos
malmequeres
A terrível espiral
tem um fim trágico:
As flores quânticas
comem-no às colheres !
Pois quando o teu
espírito está livre
Está feliz e deixa
a mente brincar
Ultrapassa-te e
põe-te a sonhar !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Falso
herói
E de
súbito, a falsa calma que se compra.
A serpente sem alma que nos afronta sem
se amedrontar. E num instante um homem volta a amar,
amando o mundo e a si próprio, pois deu um
par de asas ao ópio, a cobra alada do bem-estar.
A serpente sem alma que nos afronta sem
se amedrontar. E num instante um homem volta a amar,
amando o mundo e a si próprio, pois deu um
par de asas ao ópio, a cobra alada do bem-estar.
Mas o chão
há-de chegar, e com ele o frio que
rasga a mente, que sem estar dormentemente
inconsciente perde o brio.
rasga a mente, que sem estar dormentemente
inconsciente perde o brio.
Ansiando a
face rosada e quente, o homem até mata,
e finalmente ao voar na alada serpente,
sobrevoa as pedras do negro rio de prata.
e finalmente ao voar na alada serpente,
sobrevoa as pedras do negro rio de prata.
Momentaneamente,
o falso herói tem a falsa
calma que se compra.
calma que se compra.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Indomável ideal
A corrente
de ar dos meus sentidos
Ao abrir as janelas
da imaginação
Exprime que jamais
dará ouvidos
Às trancas negras
da repressão
Um ideal é como o
vento
Essencial, constante
e indomável
Passa e não liga ao
momento
É irmão do próprio
tempo, inesgotável
Vive e cresce numa
mente
Como um sopro que
cresce indiferente
Algo absoluto,
inquestionável
Errando não tem
perdão
Mas cospe na cara da
razão
Quando é puro,
admirável
A corrente de ar dos
meus sentidos
Ao partir as
correias da repressão
Exprime que sempre
dará ouvidos
Às janelas abertas
da imaginação !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .


Ser
indiferente
Gostava de
não ser gente
E mudar de cor todos
os dias
Nascer debaixo de um
corpo quente
E sem pensar em
ousadias
sair do ovo e voar
para poente, indiferente
Podia ser o pólen
de uma flor
E levemente
transbordar de pureza
Voava numa Apis,
aterrava noutra cor
Tendo aí um futuro
com certeza
Quem me dera ser
gota
De orvalho, de rio,
ou de mar
Ou gota de chuva que
brota
De uma nuvem que
paire no ar
E se fosse uma
partícula de ozono
Acordava quem parece
ter sono
De proteger o mundo,
de o ver crescer
Adorava ser o ar que
respiras
Ou o carbono que
expiras
Essencialidades do
teu ser
Gostava de ser terra
e de ser semente
Assim passava por
todos indiferente.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Nossas
jovens almas
Almas que
voam aos poucos
Largando flocos de
esperança
Desfraldando gritos
considerados ocos
Sobram pútridos
ouvidos moucos
A tais ecos de
confiança
Ideais lógicos,
sãos e profundos
São tomados por
ideias banais
Aos olhos de tantos
mundos
Aos olhos dos mais
comuns mortais
Velhos do Restelo
que tais
A juventude não
será eterna
Sem o amparo da
sabedoria
A ignorância é
escura caverna
Juventa abraçada
alegria
Um pouco de sentidas
palmas
Para as nossas
jovens almas !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Poema do
Z
A puta pariu
um parvo porco
Palrava perdido de
paixão
Pobre pedinte e
poeta pimba louco
Pedinchava para
papar o podre pão
Pagou pouco e
‘’pescou’’ a pantera
Por pouca paca a
pilantra pediu
Pequena pata parva
que pecava e peca
Prima da puta que o
pariu
O passado percebeu,
no presente patinou
Pegou no pincel, um
poema pintou
Passou-se, pegou na
palerma e partiu
E do parvo porco nem
peido, nem piu. . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Desabrochar
Porquanto que a
suposta inércia se manteve
e o povo à meia luz
se deteve
nada fazia a magna
corja recear
Essa morna e
inconcreta semi-alegria
Onde ninguém
corava, chorava ou ria
monotonia impávida,
lento espreguiçar
Mas veio Setembro e
as ruas ficaram repletas
cíclico desabrochar
de mentes inquietas
Os punhos cerrados
do povo que se exprimia
E desde esse dia o
país dos cravos se levantou
Veio Outubro,
Novembro e no vento se escutou
O som do bater de
asas, fiel ode à rebeldia !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Quentes e boas
Comem-se com tempo frio e
pouco enxuto
Meia dúzia, bucha para o caminho
A tantos serve de quente conduto
E não é por ser tributo a São Martinho
Confundem-se com a própria cidade
A castanha, o assador e seu pregão
O povo passa, sente a cumplicidade
Do cheiro que há tantos anos é tradição
É o meio de publicidade mais eficaz
O fumo e o aroma que o vento traz.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Dedicação
Aqui estou eu feito
militar
Peito p’ra fora, cabeça no ar
Marchar e marchar, sempre marchando
Sempre à espera de ir destroçando
Camaradas amigos, faremos rebelião
Nunca mais sentiremos dor na pele
Temos força, grande saber e união
Grande ser que tomará o quartel
Homens acordem ! Somos setecentos !
Mil e quatrocentos olhos na escutaria
atentos
Tiro p’la culatra, manejamos a G-3
Revolta invertida ‘’estilo Abril’’ outra
vez
Mostrar o que é coragem aos sargentos
Marchar e marchar, sempre marchando
Sempre à espera de ir desertando
Não p’ra matar, somente assustar
Pacifista com arma na Marinha a marchar .
. .
Aqui estou eu feito militar. . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Êxtase in
Milfontes with Ana
Queria fazer-te uma
poesia
Com sons derivados do mar
Aliviava esta nefasta fel azia
E podias talvez relembrar . . .
É que nos meus olhos ainda estão as dunas
Flor no meu coração sempre a crescer
Desde aquela noite mágica, sem lacunas
Deusa, simples homem, luar e prazer
Das Milfontes roubei duas
Para a teus olhos ofertar
Sensações só minhas e tuas
A arte sincrónica do voar
Entrei outrora num abismo
Toco impetuosamente no fundo
Teu beijo é um grande sismo
Lembrança que ainda sacode meu mundo. . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O túnel e a luz
O caminho que percorro em direcção a mim
mesmo
é fofo e está suspenso no ar como uma nuvem, pintada
com
as cores da aurora boreal. Irei percorrê-lo
alegremente, sem que o
cansaço me incomode (há cada
vez menos cansaço), e lá, (aqui), no
extremo oposto
de mim me encontrarei. Darei um terno abraço ao ser
que me tornei (seja ele qual for), satisfeito por me
ter alcançado, e
então relembraremos histórias e
riremos de nós mesmos.
Depois vem a curiosidade sobre a nova
etapa.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

A última queda
O pano vermelho sobe
A actuação logo começa
Ao primeiro passo logo tropeça
Mas palhaço que cai bem é nobre
O louco levanta-se e cai de novo
E sem que sua crença se esmoreça
Tira do bolso um frágil ovo
Que parte com aparato na cabeça
Depois caem-lhe as calças
Dança ágil um par de valsas
Com vassouras e ceroulas
Então escorrega num limão
E cai redondo no chão
Farto de fazer coisas tolas
Mas o público não se riu
Ninguém bateu palmas sequer
O circo ficou pobre, vazio
Despido de pétalas o malmequer
O palhaço ajoelha-se e chora
Sente que chegou a sua hora
Desolado entra no camarim
Aconchega uma bala na pistola
E já dá para imaginar o fim . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Mutações
Se for como os puros
veios da água
Moldo-me a tudo, dou-me com todos
intocável, adormeço sem mágoa
Afasto os espíritos dos lodos
E mesmo se for água impura
Ela toma forma, ela se adapta
Ao tempo, à vida à bala que mata
Que rasga a carne e a justiça que não dura
O tormento, a felicidade, a pergunta
Recipientes convincentes que a água entra
E à cidade nosso corpo a ela se junta
Duelo de unidade que a paz enfrenta
Mas se ao moldar-me como a água
For de encontro ao que sou, ao meu ser
Tornar-me-ei tocha, acordarei com mágoa
Ficarei duro como rocha até morrer !
Aprendi há muito e mesmo agora
A desligar-me do tempo que em mim não
mora.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Ventos de esperança
Se sentires os ventos da
mudança
Que vagueiam de Sul para Norte
Saberás que podes ter esperança
A herança que te dão é a sorte
Tais ventos te trarão a fortuna
Baterá teu coração mais forte
Quem sabe até o amor se una
Contigo, e te retarde a morte
Porém, se em quatro paredes ficares
E abafado uma rocha te tornares
Tais sopros não te acordarão
Engole o ar livre ! Solta-te aos ventos
Conquista teus mágicos momentos
A luta é já hoje, amanhã talvez não
Se sentires os ventos da esperança
Que sopram de Sul para Norte
Para breve estará a mudança
Que virá num turbilhão com a sorte !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Deus Natura
Deus é o mar que cria a chuva
E é a chuva que na terra cai
Suave solo molhado, água turva
Fonte por onde Deus sai
Neste ente eu acredito
Na nossa Mãe Natureza
Essa eu tenho a certeza
Que tem um poder bendito
O próprio poder da vida
O ser que em mim se formou
Não uma força escondida
Aparte de quem eu sou
A Natureza é bela e antiga
Criada por um Deus de ninguém
Não remedeia o pecado e a mentira
Pois é flor e a cor que o céu tem
O Homem destrói-a, não percebe
Que Deus não faz, pede favores
Idolatrem os rios, o Sol, a neve !
Tirem dos jarros todas as flores !
Deus não tem face, tem faces
Nem tem cheiro, tem cheiros. . .







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